Sustentabilidade

Designer indígena transforma resíduo de mandioca em inovação sustentável na ExpoPIM

Direto do Alto Rio Negro, Sioduhi Waíkhun apresenta tecnologia ancestral que une saber indígena e ciência para revolucionar a moda brasileira

Jeyzy Xavier
22/03/2026 às 12:45.
Atualizado em 22/03/2026 às 12:45

Sioduhi apresentou a Maniocolor, startup que transforma casca de mandioca em pigmentos naturais para a moda, unindo tradição ancestral e inovação tecnológica (Divulgação)

No agitado pavilhão da ExpoPIM, em Manaus, entre estandes de eletrônicos e grandes indústrias, um homem de 30 anos revoluciona a lógica do tempo. Sioduhi Waíkhun, originário de São Gabriel da Cachoeira, a cidade mais indígena do Brasil, não está ali apenas para mostrar roupas. Ele está ali para provar que a tecnologia que o mundo busca para salvar o planeta já existe há milênios nas mãos do seu povo.

Sioduhi começou sua jornada na moda em São Paulo, mas foi no vácuo dos livros de história que ele encontrou sua voz. "Nós não temos referências sobre nós nos cursos de moda. Parece que ficamos parados no tempo", reflete o designer.

Ele combate o que chama de "mentira colonial". A ideia de que o indígena é coisa do passado. Para Sioduhi, a inovação está na farinha, na tapioca e, agora, na Maniocolor,  sua startup que transforma a casca da mandioca, que antes seria lixo, em pigmento para a alta costura.

"A moda, antes da roupa, é comportamento. Minha inovação é entender que não precisamos de monocultura para evoluir. Nossos conhecimentos são o que o mundo hoje chama de sustentabilidade".

Atualmente, o processo de Sioduhi é visceral e artesanal. A raspagem manual da entrecasca da mandioca e o cozimento a lenha. Ele reafirma que a ciência "não indígena" agora se curva ao seu saber.

 Em uma parceria com o INDT (Instituto de Desenvolvimento Tecnológico), o designer está refinando sua técnica. Onde havia fogão a lenha, entra o banho ultrassônico. Onde havia apenas o tom da mandioca, surgem modulações cromáticas com crajeru e acetato de ferro.

"É um processo de letramento da própria equipe técnica. Eles precisam entender que inovação para um povo indígena é diferente da indústria comum. Não queremos escalar por escalar. Queremos responsabilidade", explica Sioduhi.

Estar na ExpoPIM traz um misto de sentimentos, Sioduhi celebra estar em três espaços diferentes (do design de interiores à impressão 3D biodegradável), mas lamenta ser uma das poucas vozes indígenas em um evento em plena Amazônia.

Para ele, a moda autoral amazônica precisa de pés no chão e negócios robustos.

"Precisamos parar de romantizar a moda. Ela é um ecossistema: tem a costureira, a artesã, quem extrai a matéria-prima e o fotógrafo. É uma rede que impacta a economia real".

Apoio

A profissionalização da Maniocolor conta com o suporte técnico do Instituto de Desenvolvimento Tecnológico (INDT), que atua para transitar o processo do modo artesanal para o industrial. Atualmente, a extração do pigmento é feita de forma manual, envolvendo a raspagem da entrecasca da mandioca e o cozimento a lenha. Segundo Ramayana de Paula, Product Owner do projeto, o objetivo é realizar a transferência tecnológica para que a startup consiga escalar e aumentar sua produção.

"O INDT tem ajudado a startup a profissionalizar a sua produção. Hoje tudo é feito de forma artesanal. Eles fazem o cozimento com a lenha e a raspagem da entrecasca da mandioca, que vem com vestígios de amido, e o amido atrapalha a extração do pigmento", explica Ramayana.

Para solucionar o problema, o instituto está implementando um pré-tratamento e substituindo o cozimento pelo banho ultrassônico, técnica que torna a extração muito mais eficaz.

Além da melhoria no processo, a parceria entregará ao designer uma paleta de cores ampliada por meio de modulações cromáticas com outros insumos da região, como o crajeru e o acetato de ferro. 

"A gente também vai entregar uma paleta de cores para eles a partir de modulações cromáticas que hoje eles já fazem, mas que a gente está estruturando esse processo para que eles possam no futuro escalonar isso", conclui a gestora.

Sioduhi Waíkhun não está apenas desenvolvendo corantes, ele está reescrevendo o código da moda brasileira a partir do que sempre esteve sob nossos pés. Ao unir o banho ultrassônico do laboratório ao resíduo da roça no Alto Rio Negro, ele nos lembra que a verdadeira modernidade não é aquela que destrói para criar, mas a que honra o ciclo da vida.

Sua trajetória na ExpoPIM deixa um manifesto silencioso em cada peça tingida, a de que o Brasil precisa, urgentemente, se reconhecer no espelho da floresta. Como ele mesmo define, com a autoridade de quem transforma terra em arte.

"Nós brasileiros não compreendemos nossa origem indígena porque pisamos na terra, mas não olhamos para ela. A inovação indígena é o oposto da industrialização vazia. Minha cor carrega o legado das estrelas e o resto da roça do meu território."
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