Direto do Alto Rio Negro, Sioduhi Waíkhun apresenta tecnologia ancestral que une saber indígena e ciência para revolucionar a moda brasileira
Sioduhi apresentou a Maniocolor, startup que transforma casca de mandioca em pigmentos naturais para a moda, unindo tradição ancestral e inovação tecnológica (Divulgação)
No agitado pavilhão da ExpoPIM, em Manaus, entre estandes de eletrônicos e grandes indústrias, um homem de 30 anos revoluciona a lógica do tempo. Sioduhi Waíkhun, originário de São Gabriel da Cachoeira, a cidade mais indígena do Brasil, não está ali apenas para mostrar roupas. Ele está ali para provar que a tecnologia que o mundo busca para salvar o planeta já existe há milênios nas mãos do seu povo.
Sioduhi começou sua jornada na moda em São Paulo, mas foi no vácuo dos livros de história que ele encontrou sua voz. "Nós não temos referências sobre nós nos cursos de moda. Parece que ficamos parados no tempo", reflete o designer.
Ele combate o que chama de "mentira colonial". A ideia de que o indígena é coisa do passado. Para Sioduhi, a inovação está na farinha, na tapioca e, agora, na Maniocolor, sua startup que transforma a casca da mandioca, que antes seria lixo, em pigmento para a alta costura.
Atualmente, o processo de Sioduhi é visceral e artesanal. A raspagem manual da entrecasca da mandioca e o cozimento a lenha. Ele reafirma que a ciência "não indígena" agora se curva ao seu saber.
Em uma parceria com o INDT (Instituto de Desenvolvimento Tecnológico), o designer está refinando sua técnica. Onde havia fogão a lenha, entra o banho ultrassônico. Onde havia apenas o tom da mandioca, surgem modulações cromáticas com crajeru e acetato de ferro.
Estar na ExpoPIM traz um misto de sentimentos, Sioduhi celebra estar em três espaços diferentes (do design de interiores à impressão 3D biodegradável), mas lamenta ser uma das poucas vozes indígenas em um evento em plena Amazônia.
Para ele, a moda autoral amazônica precisa de pés no chão e negócios robustos.
A profissionalização da Maniocolor conta com o suporte técnico do Instituto de Desenvolvimento Tecnológico (INDT), que atua para transitar o processo do modo artesanal para o industrial. Atualmente, a extração do pigmento é feita de forma manual, envolvendo a raspagem da entrecasca da mandioca e o cozimento a lenha. Segundo Ramayana de Paula, Product Owner do projeto, o objetivo é realizar a transferência tecnológica para que a startup consiga escalar e aumentar sua produção.
Para solucionar o problema, o instituto está implementando um pré-tratamento e substituindo o cozimento pelo banho ultrassônico, técnica que torna a extração muito mais eficaz.
Além da melhoria no processo, a parceria entregará ao designer uma paleta de cores ampliada por meio de modulações cromáticas com outros insumos da região, como o crajeru e o acetato de ferro.
Sioduhi Waíkhun não está apenas desenvolvendo corantes, ele está reescrevendo o código da moda brasileira a partir do que sempre esteve sob nossos pés. Ao unir o banho ultrassônico do laboratório ao resíduo da roça no Alto Rio Negro, ele nos lembra que a verdadeira modernidade não é aquela que destrói para criar, mas a que honra o ciclo da vida.
Sua trajetória na ExpoPIM deixa um manifesto silencioso em cada peça tingida, a de que o Brasil precisa, urgentemente, se reconhecer no espelho da floresta. Como ele mesmo define, com a autoridade de quem transforma terra em arte.