Levantamento aponta impactos de secas severas e crescimento da demanda hídrica industrial e humana na capital amazonense.
(Foto: Junio Matos/A CRÍTICA)
Mesmo cercada por uma das maiores reservas de água doce do planeta, Manaus pode enfrentar dificuldades de abastecimento nas próximas décadas. A constatação faz parte de um estudo divulgado pelo Instituto Trata Brasil e debatido na Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo, que analisa os impactos das mudanças climáticas, a intensificação de secas severas e a exploração de águas subterrâneas na capital amazonense.
Segundo as conclusões do levantamento, a percepção de que os recursos hídricos na Amazônia são inesgotáveis é enganosa. As projeções indicam que até 2040 haverá um aumento de 7% nas retiradas totais de água, impulsionado por um salto de 43% na demanda do setor industrial e de 23% no consumo para abastecimento humano, o que exige medidas imediatas de preservação para impedir impactos irreversíveis.
Para conter os efeitos das estiagens extremas registradas em 2023 e 2024, a concessionária Águas de Manaus aplicou R$ 20 milhões na readequação dos níveis de captação, assegurando a operação caso o rio atinja marcas ainda mais baixas. Entre as soluções implantadas na capital está o uso de sistemas móveis em áreas de palafitas, estruturas que acompanham a oscilação das águas e mantêm o fornecimento ininterrupto.
O estudo também alertou para a quantidade expressiva de poços perfurados em Manaus sem cadastro junto aos órgãos ambientais e de controle. Diante desse cenário, especialistas apontam como pilares para a resiliência hídrica da região o uso consciente dos mananciais subterrâneos, a adoção de políticas sustentáveis pelo Polo Industrial de Manaus e a expansão da tarifa social.
Em âmbito nacional, o Brasil soma 32 milhões de pessoas sem acesso à água tratada e mais de 90 milhões sem serviços de coleta e tratamento de esgoto, quadro no qual a região Norte desponta como a mais vulnerável. Embora Manaus apresente 97% de cobertura no atendimento com água tratada, o avanço no tratamento de efluentes e na sustentabilidade do ciclo hídrico permanece como desafio prioritário.