Crescimento desordenado fragmenta áreas verdes e compromete a sobrevivência da espécie
O sauim-de-coleira enfrenta a perda e a fragmentação do habitat (Foto: Junio Matos/A Crítica)
O avanço urbano em Manaus tem impactado diretamente a sobrevivência do Sauim-de-coleira, espécie símbolo da capital amazonense que é considerada criticamente ameaçada de extinção. O alerta foi reforçado pelo superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Amazonas, Joel Araújo, que relaciona a diminuição da presença do primata à expansão urbana desordenada da cidade.
Segundo Araújo, a construção de novas vias, condomínios e empreendimentos têm fragmentado as áreas verdes de Manaus, interrompendo a conexão entre os habitats naturais da espécie. “A diminuição da presença do sauim-de-coleira está diretamente relacionada ao crescimento urbano da cidade. A construção de novas vias interrompe a conexão entre áreas verdes e muitas dessas áreas estão sendo substituídas por concreto, prédios e condomínios”, afirmou.
De acordo com Araújo, o sauim-de-coleira vive principalmente em fragmentos florestais dentro da própria cidade. Entre os locais onde ainda é possível encontrar a espécie estão o campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a Reserva Florestal Adolpho Ducke, onde também funciona o Museu da Amazônia, o Bosque da Ciência e o Parque Estadual Sumaúma, considerado uma das maiores áreas verdes da zona urbana da capital.
Araújo destacou ainda a importância de iniciativas de preservação, como a revitalização da Reserva de Vida Silvestre Sauim Castanheira, embora ressalte que ainda são necessários mais investimentos e ações para consolidar a proteção da área.
Além disso, ele citou a criação da Reserva de Vida Silvestre do Sauim como um avanço para a conservação da espécie na região. “Precisamos aprender a conviver com as áreas verdes das cidades. O crescimento urbano precisa ser planejado para manter espaços importantes para o clima, a biodiversidade e para a sobrevivência de espécies como o sauim-de-coleira”, destacou.
Conforme ele, o Ibama também tem adotado medidas de proteção, como a suspensão de licenças ambientais para empreendimentos que não apresentaram planos de mitigação de impactos sobre o habitat do primata. O órgão federal ainda criou um recinto específico para a reabilitação de sauins e outros primatas de pequeno porte.
Para a pesquisadora Alessandra Nava, da Fundação Oswaldo Cruz – unidade Fiocruz Amazônia, a situação atual é resultado da destruição acelerada de áreas verdes em Manaus.
Segundo ela, o desaparecimento do habitat natural do sauim ocorre à medida que espaços antes ocupados pela floresta são substituídos por empreendimentos urbanos. “É uma tragédia impulsionada pela destruição desenfreada de áreas verdes para a construção de empreendimentos. As áreas dos sauins estão sendo substituídas e interrompidas por postos de combustíveis, condomínios e avenidas”, afirmou.
A pesquisadora também criticou a distância entre o discurso institucional e a realidade da preservação ambiental na cidade. “Há um discurso do poder público em favor do sauim, mas na prática o que vemos é o oposto”, concluiu.
Os sauins-de-coleira são primatas encontrados somente em Manaus, Rio Preto da Eva e Itacoatiara (distantes a 57 km e a 176 km da capital, respectivamente). Estudos sobre a espécie são realizadas no “Projeto Sauim-de-coleira”, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e no Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).