Crescimento de condomínios e desmatamento deixam felinos sem presas naturais
Sem presas naturais, felinos migram para o perímetro urbano em busca de abrigo e comida (Foto: Divulgação)
A perda da fauna e da flora em razão do crescimento urbano tem ocasionado problemas para moradores de Iranduba (a 27 quilômetros de Manaus), com o aparecimento e ataques de onças-pintadas na área urbana do município. O presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Amazonas (CRMV-AM), Augusto Omena, alerta que as florestas da região estão “sufocadas” e que o crescimento de condomínios na localidade é uma problemática séria.
“O homem está invadindo a área dessas onças, e elas estão buscando outros habitats para se alimentar. Como à frente só tem rio, vai existir esse enfrentamento com o ser humano e com animais domésticos”, explicou Omena.
No último dia 24 de janeiro deste ano, uma onça-pintada atacou um homem que estava em uma motocicleta e matou um cachorro no quilômetro 7 da Estrada da “Cidade Universitária”. Após o ataque, no domingo (25), o felino também foi visto por moradores da região caçando na área urbana.
“Acredito que o homem que ficou ferido estava no lugar errado, na hora errada, pois a onça tem medo do ser humano. Quando temos uma mata sem fragmentação, a onça acaba encontrando um cachorro ou até mesmo um idoso para o enfrentamento. Isso também pode acontecer com uma cobra ou um jacaré, pois quando a floresta acaba, consequentemente acaba o alimento”, disse Omena, que alertou que novos ataques poderão acontecer no município caso o desmatamento desenfreado na região continue.
Onça-pintada ferida
Omena também relembrou o caso da onça-pintada resgatada em outubro do ano passado no rio Negro, que apresentava mais de 30 perfurações provocadas por tiros de chumbinho, principalmente na região da cabeça, dentes quebrados e outros ferimentos. O animal passou por procedimento cirúrgico e atendimento veterinário em uma força-tarefa da Secretaria de Estado de Proteção Animal e, posteriormente, foi reinserido em seu habitat natural, em novembro do ano passado.
“Essa onça mexeu demais com o nosso sentimento. Foi triste demais, pois ela pediu socorro”, pontuou.
Destruição de habitat
Segundo o superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Amazonas, Joel Araújo, o crescimento urbano e a retirada da camada vegetal destroem o habitat natural e interrompem as cadeias alimentares. Sem frutas, os pequenos mamíferos desaparecem; sem eles, a onça-pintada, que está no topo da cadeia alimentar, fica sem alimento e precisa migrar.
“A fauna perde espaço a cada dia para o crescimento urbano e também para a expansão de propriedades onde há a retirada da camada vegetal. Com essa perda, desaparece toda a fauna presente. Esses animais fazem parte de diversas cadeias alimentares, das quais a onça depende para sobreviver. Se não há frutas para o pequeno mamífero, ele não permanece no local. E, sem o pequeno mamífero, que serve de alimento para a onça, ela também não vai ficar ali”, afirmou Araújo.
Efeito das mudanças climáticas
Para o superintendente do Ibama no Amazonas, Joel Araújo, a problemática gera grandes prejuízos, principalmente na questão climática, relacionada à temperatura da floresta e do solo.
“O aumento da temperatura dentro da floresta é outro fenômeno que extingue espécies e dificulta a alimentação desses animais. Há também a diminuição do espaço vital dessas espécies, que ficam comprimidas. Em algum momento, esses animais vão buscar abrigo, água e alimento em outros lugares e, muitas vezes, acabam se deparando com o perímetro urbano das nossas cidades”, explicou.
Joel Araújo também destaca que, muitas vezes, o animal está em busca de alimento, mas, em outras situações, apenas circula pela região e acaba se deparando com animais domésticos, que se tornam presas.
“Precisamos ter parcimônia ao lidar com a situação desses animais e buscar alternativas para que deixem de circular nas cidades. Existem diversas estratégias de manejo de animais domésticos, do animal silvestre e da própria floresta, visando à preservação dessas espécies, inclusive com a manutenção de áreas verdes ao redor do perímetro urbano. Assim, essas espécies terão espaço para sobreviver, que é a própria Amazônia, e condições de se alimentar sem a necessidade de circular pelas cidades e pelas casas das pessoas”, concluiu o superintendente.
Dados
Segundo estudos realizados pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) sobre ataques de onças-pintadas a humanos entre os anos de 1950 e 2018, na Amazônia foram registrados 77 casos, sendo 13 relatos anteriores a 1950 e 64 ocorrências entre 1950 e 2018. O Amazonas foi o estado com o maior número de ataques relatados, totalizando 42 casos. As principais vítimas eram homens adultos, desacompanhados, que estavam em atividade de caça.