Inspiração para o jogo e série da HBO, fungo que 'controla' hospedeiros é alvo de estudo científico
(Fotos: Acervo pessoal)
Em “The Last of Us”, um fungo chamado “cordyceps” transforma seres humanos em zumbis, espalhando uma pandemia apocalíptica e devastadora. Embora ficção, a inspiração para os jogos e série vem de um fenômeno real e fascinante da natureza: fungos capazes de tomar o controle de insetos e aracnídeos, manipulando seus corpos como marionetes.
Na última semana, pesquisadores da Universidade de Copenhague, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) registraram um raro episódio da natureza: um fungo cordyceps caloceroides encontrado parasitando uma tarântula. O achado, divulgado nas redes sociais, revela como a floresta guarda mistérios ainda pouco explorados e reforça a importância da pesquisa científica na região.
Em entrevista ao A CRÍTICA, Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos, professor doutor da UFSC e membro da expedição, destacou a relevância do achado e explicou como o fungo cordyceps atua ao parasitar seus hospedeiros, transformando o que seria apenas curiosidade científica em um registro de grande impacto para a biologia.
“É fantástico, pois é uma espécie rara. O espécime que encontramos estava muito bem preservado. Então, tem informações morfológicas e também vai permitir a gente fazer estudos de biologia molecular, análises filogenéticas para entender se existem mais espécies sob esse nome”, destacou.
Cordyceps na natureza
Embora fungos semelhantes possam ser encontrados em outros biomas brasileiros — como o que parasita aranhas gigantes nas matas nebulares do Sul do Brasil —, o pesquisador ressalta a importância do espécime encontrado na Amazônia para análises morfológicas macro e microscópicas, devido seu estado de preservação.
“São outras condições ambientais, outras espécies de aranha e esses fungos têm níveis de especialização bem altos. Exemplo, é a espécie X do fungo que ataca a espécie Y da formiga. São relações que muitas vezes se estabeleceram a 50 milhões de anos. Estudos comprovam, no caso das formigas. Enquanto com a aracnídeos é muito raro e muito difícil de encontrar”, salientou.
Na natureza, o pesquisador explica que o cordyceps se propaga através de esporos que infectam os seus hospedeiros e que existem diversas estratégias de como infectar o hospedeiro específico, no entanto não há tantas informações de infecção em aracnídeos.
“A partir do momento que ele infecta, tem muitas perguntas ainda para serem respondidas. Muito provavelmente os esporos caem sobre o corpo das aranhas, ou elas passam no solo onde tem esses esporos já germinados e acabam se contaminando de alguma forma”, detalhou.
Após a infecção, os fungos entram no organismo das aranhas e se multiplicam, consumindo todos os nutrientes. Santos explica ainda que o cordyceps altera o comportamento de seu hospedeiro, fazendo com que o aracnídeo se enterre em um ambiente onde será completamente consumido e morrerá.
(Fotos: Acervo pessoal)
O universo The Last of Us e a ciência
Em The Last of Us, o cordyceps amedronta jogadores e espectadores, mas também desperta curiosidade sobre o mundo dos fungos. O registro inédito do fungo parasitando uma tarântula na Amazônia mostra como a fronteira entre ficção e ciência é fértil e, que o universo fictício criado por Neil Druckmann, ajuda a desmistificar o tema, amplia o interesse público e fortalece a pesquisa científica.
“Nos dá a oportunidade de falarmos sobre fungos, ou seja, abre os olhos, abre o interesse das pessoas. Na minha opinião, o jogo ajudou a popularizar bastante os fungos. Um grupo extremamente importante para a sociedade e muito pouco conhecido ainda no mundo e muito negligenciado”, frisou.
Para a ciência, o cordyceps caloceroides encontrado na Amazônia é de extrema importância, uma vez que estima-se que se conheça menos de 10% dos fungos existentes no mundo.
“O Brasil hospeda mais de 10% da biodiversidade global. Enquanto nação, temos o compromisso na catalogação da biodiversidade. Não só pela perspectiva global, mas pela soberania, porque isso é riqueza do nosso país. As espécies precisam ser descritas e conhecidas, mas existe outro apelo gigantesco por trás disso, que é o potencial de aplicabilidade”, salientou.
O cordyceps é retratado em The Last of Us como a força que devasta a humanidade. Fora da ficção os fungos desempenham um papel essencial na sociedade. Do reino fungi surgem soluções que transformaram a medicina, como a penicilina, e que sustentam hábitos cotidianos, como o uso de leveduras na produção de pães e bebidas, além de espécies comestíveis que enriquecem a alimentação.
“Ou seja, cada espécie de fungo é uma caixinha biotecnológica com grande potencial de aplicabilidade para resolver problemas na nossa sociedade. Os fungos têm potencial farmacológico, medicinal ou de aplicação direta em vários tipos de indústrias, e vai até as mudanças do clima, pois os fungos contribuem de forma muito significativa na manutenção da temperatura do nosso planeta”, destacou.
Tropical Mycology Field Course (University of Copenhagen)
A expedição científica que registrou o cordyceps caloceroides parasitando uma tarântula na Reserva Estadual Adolpho Ducke, em Manaus, integra o Curso de Campo em Micologia Tropical da Universidade de Copenhague, voltado a explorar a diversidade, taxonomia, ecologia e evolução dos fungos superiores.
“É muito emocionante trabalhar com um grupo de organismos tão pouco conhecido, mas tão rico em diversidade e em impossibilidades de resolver os problemas da nossa sociedade, atual e futura. É um reconhecimento para esse grupo tão importante de fungos”, destacou o pesquisador.
A iniciativa combina atividades de laboratório e práticas em campo, ensinando técnicas de coleta, identificação e observação microscópica, além de discutir a importância dos fungos para a ciência e para a sociedade.
“Diante das mudanças do clima, esses organismos também sofrem com as mesmas ameaças que os animais e as plantas sofrem. Então precisamos incluir os fungos, principalmente esses endêmicos, que só existem em determinados locais, em programas de conservação”, terminou.
O curso é coordenado pelo professor João Araújo e tem como palestrantes os professores Thomas Læssøe, Jacob Heilmann-Clausen, Eissandro Ricardo Drechsler dos Santos, Dirce Komura e Caio Leal Dutra.