Estudantes da Escola Estadual Castelo Branco participaram de rodas de conversa sobre a violência contra a mulher
Matérias publicadas pelo jornal e portal A CRÍTICA sobre o combate à violência contra mulher foram utilizadas nas rodas de conversa da Escola Estadual Castelo Branco (Paulo Bindá)
Diante do aumento dos casos de feminicídio no Brasil, a Escola Estadual Presidente Castelo Branco, no bairro São Jorge, encontrou uma forma de trabalhar o tema de maneira multidisciplinar, envolvendo os estudantes ativamente na reflexão e na conscientização sobre respeito, igualdade de gênero e prevenção da violência. Nesta sexta-feira (20), a unidade escolar promoveu rodas de conversa sobre o combate à violência contra a mulher em todas as 17 turmas do ensino médio.
As ações permitem que os adolescentes interajam e troquem experiências, contribuindo para a desconstrução de comportamentos machistas presentes na sociedade, que, na fase adulta, podem se manifestar na forma de violência doméstica, assédio e outros crimes.
As atividades acontecem no momento em que o Brasil bateu, novamente, o recorde de feminicídio. Ao todo, 1.568 mulheres foram mortas em 2025, o que superou 2024, quando o país teve 1.492 feminicídios. E que, apesar da redução de 31%, o Amazonas ainda registrou 20 mortes de mulheres.
A diretora Vanda Mara destacou que a ação, que está prevista no calendário da Secretaria Estadual de Educação (Seduc), ganha força no ambiente escolar, que desempenha um papel fundamental no combate às violências contra a mulher. Segundo ela, isso se torna ainda mais relevante porque os alunos, especialmente do ensino médio, estão em uma fase de transição para a vida adulta.
A gestora explicou que os trabalhos são uma forma de desconstruir comportamentos e elevar o nível de consciência dos adolescentes sobre o assunto.
Ela também ressaltou que abordar temas como a violência contra a mulher, o racismo e outros crimes é essencial para fortalecer a confiança entre alunos e educadores. Segundo ela, a escola muitas vezes se torna um espaço de escuta, no qual professores e gestores atuam como agentes de acolhimento e no enfrentamento de situações de violência que os jovens possam sofrer.
O trabalho foi dividido da seguinte forma: nos primeiros anos do ensino médio as rodas de conversa giraram em torno dos tipos de violência, segundo a Lei Maria da Penha; nos segundos anos, os debates enfocaram o machismo estrutural; e nos terceiros nos, o feminicídio foi discutido a partir de matérias jornalistas, inclusive de notícias publicadas pelo jornal e portal A CRÍTICA.
A professora de Artes, Andrea Melo, produziu com os estudantes do segundo ano do ensino médio um mural com colagens em papel, intervenções têxteis e instalação em rede, exposto na entrada da escola. A obra busca expressar, por meio da arte, o entendimento dos estudantes sobre a liberdade feminina.
Para ela, a arte é uma forma de desconstruir amarras colocadas nas mulheres durante a história da humanidade. “Dentro dessa proposta, buscamos trazer uma arte de técnica mista, a colagem e os fios conduzindo essas colagens, como forma de reflexão de um tema trabalhado em sala, que mostra que por muito tempo o trabalho feminino foi segregado, apagado ao longo da história da arte. E quando era utilizado, era colocado em segundo plano, então considero que a arte seja uma potente ferramenta de socialização, criticidade e expressividade”, informou a docente.
Ela ressaltou que, a partir das colagens que expressam o que os adolescentes entendem por liberdade feminina, direitos das mulheres e figuras que representam essa causa, é possível trabalhar o tema de forma dinâmica, promovendo conhecimento e fortalecendo o combate às violências.
A professora de filosofia Carla Rangel coordenou as rodas de conversa sobre o machismo estrutural. Ela disse que os debates dentro da sala aumentam o entendimento dos alunos e alunas sobre o papel da mulher na sociedade e a se sensibilizarem com situações vivenciadas no dia a dia.
A educadora ressaltou que trabalhar o combate à violência contra a mulher com adolescentes do sexo masculino é essencial para o desenvolvimento social deles. Nessa fase, em que iniciam seus primeiros relacionamentos, o acesso à informação e à reflexão contribui para a formação de homens mais respeitosos e conscientes, livres de comportamentos violentos.
A participação dos meninos é indispensável nos debates, para que haja um ponto de reflexão e troca com as vivências das colegas. O estudante Randson Matias, 16, criticou a mentalidade possessiva que alguns homens têm sobre as mulheres.
Randson também criticou as atitudes de homens nas redes sociais, que é um dos temas abordados em sala de aula.
O adolescente Adolar Garcia, 16 anos, também criticou o comportamento dos homens, especificamente por não respeitarem as mulheres quando estão sozinhas.
A aluna do terceiro ano do ensino médio, Emile Bandeira,17 anos, defendeu que o tema seja debatido dentro das escolas, pois segundo ela, nem todos têm uma consciência formada sobre a luta contra a violência contra as mulheres.
Ela afirmou que as atividades podem contribuir para que os meninos entendam seu papel na luta contra o feminicídio.
A estudante Helen Oliveira, 17 anos, disse que as atividades estão trazendo novas análises sobre o ódio contra as mulheres, até dentro das redes sociais.
Ela explicou que as ações facilitam o aprendizado e até identificação de problemas que antes eram ignorados.
A professora de Educação Física, Ana Lúcia Araújo, ressaltou que a ação busca ensinar as meninas a reconhecer diferentes formas de violência, mas, principalmente, conscientizar o público masculino de que não são donos das mulheres e de que devem respeitá-las.
Ela ressaltou que os homens devem ser ensinados que não podem ser parte do problema e que as meninas devem ser conscientizadas de não aceitarem violências. “No primeiro aperto do teu braço, na primeira puxada de cabelo ou no primeiro grito não vai dar certo. A gente tenta trabalhar isso. Isso deveria ser ensinado em casa, mas muitas vezes, não é”, destacou.