Conscientização

Combate ao feminicídio mobiliza escola na capital amazonense

Estudantes da Escola Estadual Castelo Branco participaram de rodas de conversa sobre a violência contra a mulher

Emile de Souza
22/03/2026 às 10:48.
Atualizado em 22/03/2026 às 10:48

Matérias publicadas pelo jornal e portal A CRÍTICA sobre o combate à violência contra mulher foram utilizadas nas rodas de conversa da Escola Estadual Castelo Branco (Paulo Bindá)

Diante do aumento dos casos de feminicídio no Brasil, a Escola Estadual Presidente Castelo Branco, no bairro São Jorge, encontrou uma forma de trabalhar o tema de maneira multidisciplinar, envolvendo os estudantes ativamente na reflexão e na conscientização sobre respeito, igualdade de gênero e prevenção da violência. Nesta sexta-feira (20), a unidade escolar promoveu rodas de conversa sobre o combate à violência contra a mulher em todas as 17 turmas do ensino médio.

As ações permitem que os adolescentes interajam e troquem experiências, contribuindo para a desconstrução de comportamentos machistas presentes na sociedade, que, na fase adulta, podem se manifestar na forma de violência doméstica, assédio e outros crimes.

As atividades acontecem no momento em que o Brasil bateu, novamente, o recorde de feminicídio. Ao todo, 1.568 mulheres foram mortas em 2025, o que superou 2024, quando o país teve 1.492 feminicídios. E que, apesar da redução de 31%, o Amazonas ainda registrou 20 mortes de mulheres.

A diretora Vanda Mara destacou que a ação, que está prevista no calendário da Secretaria Estadual de Educação (Seduc), ganha força no ambiente escolar, que desempenha um papel fundamental no combate às violências contra a mulher. Segundo ela, isso se torna ainda mais relevante porque os alunos, especialmente do ensino médio, estão em uma fase de transição para a vida adulta.

A gestora explicou que os trabalhos são uma forma de desconstruir comportamentos e elevar o nível de consciência dos adolescentes sobre o assunto.

“Quando ensinamos esses meninos sobre as violências, a gente ajuda a construir consciência do que é a violência e a partir do momento que você toma consciência, aprende sobre o respeito, você já não comete a violência. Ele começa a criar disciplinas de comportamento. Obviamente a gente sabe que nem todos são alcançados no nível desejado, mas nós queremos esse entendimento e fazer um trabalho preventivo e permanente para esses adolescente”, disse.

Ela também ressaltou que abordar temas como a violência contra a mulher, o racismo e outros crimes é essencial para fortalecer a confiança entre alunos e educadores. Segundo ela, a escola muitas vezes se torna um espaço de escuta, no qual professores e gestores atuam como agentes de acolhimento e no enfrentamento de situações de violência que os jovens possam sofrer.

“Muitas vezes a escola é o lugar onde eles buscam ajuda de algumas coisas que eles estão passando, algum tipo de sofrimento, abuso, tristeza. Quando se ganha essa confiança, eles chegam e falam para o professor, para a direção pedagógica, coordenação e com o devido acolhimento, eles se aproximam mais e podem ter suporte”, contou.

Atuação integrada

O trabalho foi dividido da seguinte forma: nos primeiros anos do ensino médio as rodas de conversa giraram em torno dos tipos de violência, segundo a Lei Maria da Penha; nos segundos anos, os debates enfocaram o machismo estrutural; e nos terceiros nos, o feminicídio foi discutido a partir de matérias jornalistas, inclusive de notícias publicadas pelo jornal e portal A CRÍTICA.

A professora de Artes, Andrea Melo, produziu com os estudantes do segundo ano do ensino médio um mural com colagens em papel, intervenções têxteis e instalação em rede, exposto na entrada da escola. A obra busca expressar, por meio da arte, o entendimento dos estudantes sobre a liberdade feminina.

Para ela, a arte é uma forma de desconstruir amarras colocadas nas mulheres durante a história da humanidade. “Dentro dessa proposta, buscamos trazer uma arte de técnica mista, a colagem e os fios conduzindo essas colagens, como forma de reflexão de um tema trabalhado em sala, que mostra que por muito tempo o trabalho feminino foi segregado, apagado ao longo da história da arte. E quando era utilizado, era colocado em segundo plano, então considero que a arte seja uma potente ferramenta de socialização, criticidade e expressividade”, informou a docente.

Ela ressaltou que, a partir das colagens que expressam o que os adolescentes entendem por liberdade feminina, direitos das mulheres e figuras que representam essa causa, é possível trabalhar o tema de forma dinâmica, promovendo conhecimento e fortalecendo o combate às violências.

“Estamos ensinando os meninos e as meninas, que as mulheres, sejam elas: mães, irmãs, namoradas, têm o direito de ser quem elas quiserem. Esse tema não é somente ao público feminino, porque os meninos precisam refletir e se expressar sobre isso”, disse.

'É a fase ideal para discutir'

A professora de filosofia Carla Rangel coordenou as rodas de conversa sobre o machismo estrutural. Ela disse que os debates dentro da sala aumentam o entendimento dos alunos e alunas sobre o papel da mulher na sociedade e a se sensibilizarem com situações vivenciadas no dia a dia.

“A atividade ensina a eles entenderem o que é mais machismo estrutural, está dentro das estruturas da sociedade. Nesse processo, os meninos e as meninas vão aprendendo os conceitos, as situações, ouvindo os exemplos, também tentando se sensibilizar. Eles começam a analisar situações dentro de casa, com a mãe, irmã, com avó e com as namoradas”, disse.

A educadora ressaltou que trabalhar o combate à violência contra a mulher com adolescentes do sexo masculino é essencial para o desenvolvimento social deles. Nessa fase, em que iniciam seus primeiros relacionamentos, o acesso à informação e à reflexão contribui para a formação de homens mais respeitosos e conscientes, livres de comportamentos violentos.

“É a fase ideal para discutir essas temáticas porque é onde eles estão começando a se relacionar com mulheres, eles estão começando a observar mulheres e aí eles vão ter esse papel de entender que mulheres não são objetos, elas são pessoas que têm sentimentos, que têm pensamentos também, têm liberdade”, afirmou Carla Rangel.

Participação de alunos é indispensável

A participação dos meninos é indispensável nos debates, para que haja um ponto de reflexão e troca com as vivências das colegas. O estudante Randson Matias, 16, criticou a mentalidade possessiva que alguns homens têm sobre as mulheres.

“Tem muito homem que fica mandando na mulher, tem muito homem que pensa que: ‘tem que botar moral na casa’. Isso não é legal. Tem homem que chega do trabalho e já quer partir para a violência para cima das mulheres. Eu acho isso um absurdo. Sinceramente, eu penso que é um absurdo e que não faria isso com a minha esposa”, afirmou o adolescente.

Randson também criticou as atitudes de homens nas redes sociais, que é um dos temas abordados em sala de aula.

O adolescente Adolar Garcia, 16 anos, também criticou o comportamento dos homens, especificamente por não respeitarem as mulheres quando estão sozinhas.

“A respeito das mulheres solteiras, elas sofrem mais, mais do que as mulheres que têm marido, porque elas são mãe solteira, trabalham, cuidam da casa, cuidam dos filhos, cuidam de tudo, é a chefe de tudo, e tem o homem que não respeita essa mulher se ela não tiver acompanhada, se não tiver um marido”, disse.

'Pode impactar positivamente'

A aluna do terceiro ano do ensino médio, Emile Bandeira,17 anos, defendeu que o tema seja debatido dentro das escolas, pois segundo ela, nem todos têm uma consciência formada sobre a luta contra a violência contra as mulheres.

“Apesar de ser um tema que a gente vê frequentemente, não é um tema que a gente discute tanto assim. É como se fosse aquela coisa que a gente sabe que existe, só que a gente não discute tanto por ser um assunto mais delicado e nem todo mundo tem uma opinião concisa sobre isso, mas pode aprender”, disse.

Ela afirmou que as atividades podem contribuir para que os meninos entendam seu papel na luta contra o feminicídio.

“Eu acho que pode impactar positivamente por causa que ajuda a desenvolver mais esse senso crítico em relação ao feminicídio. Principalmente porque você tem um choque de realidade que isso pode acontecer com sua mãe, sua irmã, sua vizinha”, disse a adolescente.

A estudante Helen Oliveira, 17 anos, disse que as atividades estão trazendo novas análises sobre o ódio contra as mulheres, até dentro das redes sociais.

“Recentemente a gente fez algumas atividades sobre como a rede social vem impactando nesses pensamentos machistas e misóginos. Esses pensamentos geram muita violência contra as mulheres e as vezes acabam passando despercebidos”.

Ela explicou que as ações facilitam o aprendizado e até identificação de problemas que antes eram ignorados.

“Recentemente eu acabei presenciando um caso de assédio dentro do ônibus. Então eu acho que esse projeto vai ser muito importante para abrir o olho deles, para eles verem o quão importante é a gente manter o respeito, tanto nos lugares públicos, quanto dentro das escolas, dentro de casa, para não acontecer esses casos de assédio, feminicídio, de agressão contra as mulheres, que os homens fazem”, disse.

Blog - Ana Lúcia Araújo, professora de Educação Física

A professora de Educação Física, Ana Lúcia Araújo, ressaltou que a ação busca ensinar as meninas a reconhecer diferentes formas de violência, mas, principalmente, conscientizar o público masculino de que não são donos das mulheres e de que devem respeitá-las.   

“Eu estava dizendo para os meninos que o criminoso que atacou aquela garota lá no Terminal 3, ele tem 24 anos. É um jovem. Então ele já tem essa coisa do patriarcado, de que ele é dono. Porque ele disse: “ela me traiu”, como se ele fosse dono dela. Não existe justificativa para um crime desses. E a gente precisa colocar isso na cabeça dos homens e das mulheres”, afirmou.

Ela ressaltou que os homens devem ser ensinados que não podem ser parte do problema e que as meninas devem ser conscientizadas de não aceitarem violências. “No primeiro aperto do teu braço, na primeira puxada de cabelo ou no primeiro grito não vai dar certo. A gente tenta trabalhar isso. Isso deveria ser ensinado em casa, mas muitas vezes, não é”, destacou.

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