COLUNA CLAQUETE

A arte da comédia levada a sério: Community completa 17 anos

Série criada por Dan Harmon mistura referências da cultura pop, humor e episódios experimentais para contar a história de um grupo improvável

Michael Douglas
27/09/2026 às 14:40.
Atualizado em 27/09/2026 às 14:40

Há séries que entram na nossa vida pela porta da frente, devidamente anunciadas por campanhas publicitárias e recomendações entusiasmadas. Community costuma chegar por uma janela lateral, carregando uma referência que você ainda não entendeu e uma piada que parece ter sido escrita especificamente para três pessoas em uma sala muito pequena.

Nesta semana, a série completa 17 anos desde a exibição de seu primeiro episódio, e a data oferece uma boa oportunidade para falar sobre uma obra que nunca se comportou como uma sitcom convencional.

Criada por Dan Harmon, ela acompanha Jeff Winger, um advogado desonesto obrigado a voltar para a faculdade depois que sua graduação é desmascarada. Para conseguir se aproximar de uma colega, Jeff inventa um grupo de estudos no Greendale Community College e, por acidente, reúne uma das comunidades mais improváveis da televisão.

A premissa é simples, mas o que a série faz com ela é extraordinário. Greendale começa como uma instituição de ensino comunitário meio decadente e rapidamente se transforma em um universo com regras próprias, no qual uma aula de espanhol pode envolver crises de identidade, conspirações, guerras internas e uma quantidade preocupante de frango frito. O campus acolhe pessoas que fracassaram em algum momento e ainda estão tentando decidir se isso significa que suas vidas fracassaram por inteiro.

Jeff, Britta, Abed, Troy, Shirley, Annie, Pierce e, depois, outros habitantes daquele lugar formam um grupo de estudos que funciona como uma família, embora uma família capaz de transformar uma brincadeira de paintball em conflito militar. É justamente nessa mistura de cotidiano e absurdo que a série encontra seu território mais fértil.

Os personagens são o grande motivo para dar uma chance a Community. Jeff começa como um sujeito inteligente, articulado e moralmente preguiçoso, alguém que sempre encontra uma maneira de transformar a própria covardia em argumento elegante. Britta quer ser a pessoa mais politizada da sala e frequentemente descobre que sua convicção chega antes de sua compreensão.

Annie parece organizada demais para aquele ambiente, mas sua disciplina esconde ansiedade, ambição e uma enorme dificuldade de aceitar que a vida não obedece a planilhas. Troy e Abed desenvolvem uma amizade que mistura infantilidade, imaginação e uma ternura rara. Shirley tenta manter a fé, a família e os biscoitos de sua loja enquanto Pierce insiste em ser o homem mais inconveniente da sala. Juntos, eles são contraditórios o bastante para parecer gente.

O humor da série nasce da colisão entre esses temperamentos, mas também da disposição de brincar com a própria linguagem televisiva. Community pode passar de uma discussão sobre trabalhos acadêmicos para uma paródia de filme de ação, um documentário falso, um episódio de animação em massinha ou uma investigação conduzida como se todos estivessem em um thriller europeu.

Há episódios que transformam a estrutura narrativa em piada e outros que usam a piada para alcançar uma emoção genuína. Abed, em particular, enxerga o mundo através de gêneros, formatos e referências, como se a cultura pop fosse o manual de instruções que lhe permite conviver com as pessoas. A série ri das convenções, mas também revela por que precisamos delas para organizar o caos da existência cotidiana.

Os episódios de paintball são a demonstração mais evidente dessa ambição. O que começa como uma brincadeira universitária evolui para uma paródia de faroeste, espionagem, ação e guerra, com uma energia visual que ultrapassa em muito as expectativas de uma comédia de televisão.

O sucesso dessas histórias ajudou a chamar atenção para os irmãos Anthony e Joe Russo, que dirigiram vários episódios antes de assumirem projetos de escala cada vez maior, incluindo filmes da Marvel. Existe algo deliciosamente improvável nessa trajetória: uma guerra de tinta em Greendale ajudando a revelar os diretores que mais tarde comandariam super-heróis, viagens no tempo e batalhas pelo destino do universo.

Community sempre teve esse talento para tratar uma ideia ridícula com seriedade suficiente para descobrir até onde ela poderia chegar.

A série também possui seus erros, e reconhecer isso faz parte de levá-la a sério. O ritmo pode oscilar, algumas tramas confundem excentricidade com profundidade e determinados personagens são reduzidos a uma característica até que a piada perca a graça.

A produção atravessou conflitos criativos, mudanças de elenco, temporadas irregulares e a famosa instabilidade por trás das câmeras. Pierce se torna difícil de suportar em diversos momentos, enquanto a representação de certas questões culturais e sociais envelheceu de maneira menos generosa do que outras partes da obra.

A sexta temporada, lançada em uma plataforma de streaming, tem episódios brilhantes e uma duração que às vezes parece uma provocação pessoal. Amar uma série também envolve saber onde ela tropeça, antes que o entusiasmo transforme qualquer defeito em virtude automática.

Ainda assim, Community merece ser descoberta porque entende uma coisa que muitas comédias esquecem: fazer rir e criar vínculo são atividades profundamente relacionadas.

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