Audiovisual

‘A Turma do Milhitos’: infância como território da memória

Série documental revisita personagens e programas infantis que moldaram gerações no Amazonas

Gabriel Machado
31/01/2026 às 16:08.
Atualizado em 31/01/2026 às 16:09

(Foto: Reprodução)

Em um tempo marcado pela velocidade dos algoritmos e pela fragmentação das experiências culturais, a série documental “A Turma do Milhitos” surge como um gesto de delicadeza histórica. Produzida pela Merak Produções Criativas, a obra propõe um retorno atento à infância manauara das décadas de 1970 a 1990, quando a televisão local não apenas entretinha, mas ajudava a formar imaginários, vocabulários e afetos coletivos.

Idealizada por Antônio Carlos Júnior, produtor executivo do projeto, e Ricardo Hossoe, da Majestic Multimídia, a série começou a ser gestada em 2023, como uma das primeiras iniciativas da produtora.

“Essa ideia está surgindo desde 2023, quando eu comecei a minha empresa, a Merak Produções Criativas, e a gente começou a pensar nessa série como um resgate de personagens e programas que fizeram parte do imaginário das crianças do Estado”, explicou ao BEM VIVER TV.

Para ele, aquelas gerações viveram uma infância singular, marcada por referências locais e por uma relação mais direta com o brincar.

Ainda sem data de estreia, a primeira temporada se debruça sobre figuras e atrações que atravessaram o tempo, como o emblemático “Clube do 4”, exibido pela TV A CRÍTICA entre 1984 e 1989. Comandado por Tia Cida, o programa transformou tardes em celebrações coletivas. “Foi um fenômeno social aqui dentro da cidade, chegou a dar 60% de audiência em Manaus”, relembrou Antônio Carlos. O espaço reunia desenhos, brincadeiras, desafios musicais e performances inspiradas em ídolos como Michael Jackson e Madonna, criando uma ponte entre o global e o regional.

Reconstruindo memórias

Mais do que revisitar um programa, a série investiga a dimensão simbólica daquele período. “A ideia é entender por que esses personagens foram tão importantes para uma geração de crianças e por que estão na memória dessas pessoas que, hoje, são adultos, pais, avós”, afirmou o produtor. Nesse sentido, o documentário assume também um caráter antropológico, ao mapear hábitos, linguagens e rituais da infância manauara.

O processo de reconstrução dessas memórias, inclusive, exigiu uma pesquisa minuciosa. A equipe localizou antigos produtores, técnicos, participantes e personagens dos bastidores. “A gente foi reconstituindo através dos depoimentos dessas pessoas e de imagens de arquivo que só foram transmitidas na época”, contou.

Entre os entrevistados, estão nomes como Gilberto Piranha, Luppi Pinheiro e ex-participantes dos concursos musicais, como Márcia Alves, uma jovem que venceu como cover da Madonna.

Um dos trunfos da série é o acesso a um acervo inédito. Com autorização da emissora, a produção recuperou imagens raras que nunca circularam na Internet. “Temos registros que não estão no YouTube, não estão em lugar nenhum. As pessoas vão poder se reconhecer dentro desse episódio”, destacou Antônio Carlos. O material confere densidade documental e valor histórico à narrativa.

A temporada se expande para além do “Clube do 4”, abordando personagens como Titio Barbosa, os Birutas, Oscarino e o boneco Peteleco, além de Tatiana Xavier, conhecida como a “Xuxa do Amazonas”. Todos, segundo o produtor, dialogam com referências externas ressignificadas localmente. “A gente sempre criou nossa identidade misturando o que vinha de fora com o nosso jeito de ser”, analisou.

Essa construção híbrida, marcada por isolamento geográfico e criatividade cultural, é um dos eixos centrais da série. “A televisão era o principal meio de chegada dessas referências, e a gente reconstruía tudo de forma muito particular”, afirmou.

Para Antônio Carlos, esse processo ajudou a moldar uma identidade própria, visível nas linguagens, nos sotaques e nas formas de entretenimento da cidade.

Participações ilustres

Outro elemento fundamental da narrativa são as participações do professor Sérgio Freire e do comunicador Marcus Pessoa, responsáveis por contextualizar cada episódio. “Eles traçam paralelos de memórias, brincadeiras, palavras e símbolos que são muito próprios nossos”, explicou. A presença dos dois evita o tom didático excessivo e privilegia uma abordagem afetiva e vivencial da história.

O próprio título da série carrega essa dimensão simbólica. Milhitos era o salgadinho que acompanhava a infância de muitas gerações, ao lado do Guaraná Baré e do Ki-Suco. “Era meio que o lanche oficial das crianças”, recordou o produtor. O termo funciona como metáfora de um tempo em que consumo, brincadeira e convivência se misturavam de forma mais espontânea.

Antes mesmo da estreia oficial, o impacto do projeto já se faz sentir. Nas redes sociais, multiplicam-se relatos emocionados de antigos espectadores.

“As pessoas relatam uma emoção muito forte ao relembrar essas coisas, porque existe muito pouco registro desse período”, diz Antônio Carlos.

Desta forma, o documentário preenche uma lacuna histórica deixada pela ausência de políticas sistemáticas de preservação audiovisual.

Para as novas gerações, a série também funciona como ponte entre tempos distintos. “É para entender o que seus pais, tios e avós viveram na infância, com diferenças muito significa- tivas em relação às brincadeiras de hoje”, afirmou. Ao revelar essas transformações, “A Turma do Milhitos” ajuda a compreender como a cidade se reinventou ao longo das décadas. Mais do que uma coleção de lembranças, a produção se estabelece como um arquivo cultural de múltiplas camadas.

“A gente faz um resgate histórico, social, de memória e até antropológico, criando um legado para o futuro”, resumiu Antônio Carlos Júnior.

Em um cenário em que o passado costuma ser tratado como nostalgia descartável, a série reafirma a memória como matéria viva, capaz de iluminar identidades, afetos e pertencimentos: “A gente está trazendo várias camadas diferentes, de registro cultural e de fenômenos pop da cidade, para mostrar o que moldou gerações e o quanto isso ainda reverbera na Manaus de hoje”, encerrou.

O projeto “A Turma do Milhitos” foi contemplado pela Lei Paulo Gustavo - Audiovisual 2023, da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa.

  

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