Em 2026, volume, mistura de referências e styling ganham espaço diante da estética padronizada das redes sociais e convidam a moda a recuperar a individualidade
Cores, texturas, estampas e volumes voltam a ganhar espaço com nova tendência, que abandona o "clean girl" (Divulgação)
Por muito tempo, abrir o guarda-roupa parecia significar seguir uma fórmula: cores neutras, cortes precisos, peças básicas e uma combinação cuidadosamente calculada para parecer despretensiosa. O chamado “look certinho” encontrou nas redes sociais um terreno fértil e transformou o minimalismo em uma espécie de linguagem universal. Mas, em 2026, essa estética começa a dividir espaço com roupas volumosas, acessórios marcantes, sobreposições, estampas e combinações que parecem ter sido feitas justamente para não combinar.
Mais do que uma mudança de silhueta, o movimento aponta para uma vontade de recuperar o prazer de se vestir. Depois de anos em que tendências circularam em velocidade acelerada pelos feeds, a moda passa a flertar novamente com o improviso, a mistura e aquilo que não pode ser facilmente reproduzido. Para Camila Monteiro, estilista, idealizadora e diretora criativa do Atnia Studio, a busca por originalidade também nasce de uma sensação de cansaço.
Camila Monteiro, estilista, idealizadora e diretora criativa do Atnia Studio, a busca por originalidade também nasce de uma sensação de cansaço.
Nesse cenário, o que já existia dentro de casa passa a ganhar novo valor. Brechós, peças vintage e até roupas de familiares entram novamente no radar, não apenas pela estética, mas pela possibilidade de encontrar algo que carregue história. “As peças vintages ganharam destaque, incluindo os brechós e até mesmo o guarda-roupa dos nossos pais, tias, avós. Essa dinâmica de garimpar, além de deixar tudo mais divertido, também traz de volta tendências adormecidas”, explica Camila.
Para Neemias Belfort, stylist, diretor criativo e produtor, o retorno do maximalismo também pode ser observado como parte de um comportamento histórico da moda. Em diferentes momentos de instabilidade, segundo ele, a roupa assumiu formas mais exuberantes como uma maneira de escapar da realidade.
Na leitura do stylist, o movimento atual também representa uma ruptura com a estética “clean”, que durante anos dominou vitrines, redes sociais e guarda-roupas. Para ele, a aparência neutra acabou associada a uma busca por segurança e pela ideia de não chamar atenção.
Para Neemias Belfort, stylist, diretor criativo e produtor, o retorno do maximalismo acompanha um movimento histórico em que períodos de instabilidade costumam impulsionar uma moda mais exuberante, também como forma de escapismo.
Se o maximalismo aparece como uma possibilidade de ruptura, ele não precisa significar abandonar completamente o que já funciona. A chave, segundo os profissionais, está em descobrir quais elementos fazem sentido para cada pessoa e experimentar a partir deles.
“Você precisa se conhecer bem e acima de tudo se permitir, saiba as modelagens que lhe caem bem, cores que lhe favorecem e brinque com a quebra de expectativa a partir disso”, orienta Neemias. Para exemplificar, ele sugere combinações improváveis, como uma saia drapeada com camisa de time e tênis ou uma calça jeans com vestido fluido, blazer e chinelo de dedos.
Construir um estilo próprio não significa necessariamente comprar mais. Muitas vezes, a mudança começa justamente pelas peças que já estão no armário. Para Camila, uma roupa antiga pode ganhar outra vida por meio do chamado upcycling, técnica que propõe transformar ou reutilizar peças existentes.
Além de reduzir a necessidade de novas compras, a prática pode preservar o valor afetivo das roupas. Uma peça pode ser modificada, atravessar diferentes momentos da vida e continuar carregando a história de quem a vestiu. “Além de ser sustentável, você consegue manter o apego sentimental pelas peças que podem passar de geração em geração e, claro, confeccionando uma peça que somente você vai ter”, afirma Camila.
Outra ferramenta para escapar da sensação de repetição está no styling. Sobreposições, misturas de texturas e combinações entre peças sofisticadas, casuais ou esportivas podem mudar completamente a leitura de uma mesma roupa. Para Neemias, pequenos elementos já são capazes de transformar uma produção.
A mesma lógica vale para estampas e acessórios. Uma camisa branca pode ganhar outra leitura com um lenço sobreposto, enquanto um blazer pode ser transformado pelo uso de broches diferentes ou até mesmo brincos usados como broches. São pequenas interferências que tiram a roupa do lugar comum sem exigir um armário completamente novo.
No fim, talvez o maior rompimento com o “look certinho” não esteja em abandonar o minimalismo ou aderir integralmente ao maximalismo. Está em deixar de vestir uma fórmula pronta. “Ter personalidade na moda não é você sempre se adequar às tendências e sim adequar as tendências ao seu estilo pessoal”, resume Neemias. A pergunta, segundo ele, passa a ser outra: “O que da moda maximalista se encaixa no meu estilo? Cores? Volumes? A partir daí você vai ter as respostas.”