Especialistas alertam para impactos no aprendizado e no comportamento, enquanto pais apostam em brincadeiras, leitura e tempo ao ar livre
Nesse contexto, o brincar e a leitura ganham mais espaço na infância, estimulando a imaginação, a criatividade e o desenvolvimento saudável (Divulgação)
Com o uso cada vez mais comum de telas na infância, algumas famílias optam por caminhos diferentes. Mãe de dois, a engenheira Letícia Bonetti decidiu criar os filhos sem contato com celulares, tablets ou televisão, priorizando uma rotina com brincadeiras, leitura e tempo ao ar livre.
A escolha dialoga com o alerta de especialistas, de acordo com a psicóloga clínica da infânca e adolescência Lisiane Thompson Flores, o uso excessivo de telas pode impactar o desenvolvimento infantil ao substituir experiências essenciais da infância.
A preocupação da especialista está, sobretudo, no que as telas acabam substituindo no dia a dia das crianças. Isso porque, do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento, a criança constrói o conhecimento a partir da interação com o ambiente, como explica ao citar Jean Piaget.
Esse impacto também atinge habilidades fundamentais ao longo da vida. “O excesso de estímulos rápidos e constantes das telas pode interferir na capacidade de atenção, na autorregulação emocional e até na qualidade do sono”, destaca. Segundo ela, o tempo excessivo diante dos dispositivos também pode reduzir o convívio familiar e social, essencial para a formação da identidade e das habilidades socioemocionais.
O cenário também afeta diretamente o desenvolvimento de habilidades fundamentais. “Quando o tempo de tela substitui outras atividades, algumas habilidades podem deixar de ser estimuladas. Entre elas estão o desenvolvimento da criatividade, da imaginação, da linguagem, das habilidades motoras e das competências sociais”, ressalta.
Na prática, isso acontece porque o aprendizado na infância está ligado à experiência. “A criança aprende por meio da exploração ativa do ambiente, manipulando objetos, experimentando e interagindo com outras pessoas”, explica. É nesse processo que se desenvolvem capacidades como autonomia, resolução de problemas e construção do pensamento.
Ao abordar o tema, a psicóloga também recorre às contribuições do psicanalista Donald Winnicott, que destaca a importância do brincar como um espaço fundamental para o desenvolvimento emocional.
Thompson ressalta a oferta de alternativas atrativas, como brincadeiras ao ar livre, jogos de construção, atividades artísticas, leitura de histórias e momentos de interação familiar. Segundo ela, a participação dos pais nessas atividades fortalece os vínculos afetivos e contribui para o desenvolvimento saudável da criança.
Na rotina da engenheira Letícia Bonetti, mãe de Luiz, de 3 anos, e Levi, de 6 meses, o uso de telas não faz parte do dia a dia das crianças. A escolha, segundo ela, está diretamente ligada ao acompanhamento do desenvolvimento dos filhos desde os primeiros meses de vida.
Com os dois filhos em fases diferentes, Letícia adapta as atividades à necessidade de cada um. “O mais velho já foi alfabetizado com 2 anos e 8 meses e agora faço atividades para reforçar a leitura, o mais novo estímulos para ajudar a fase de desenvolvimento que ele está agora (engatinhar)”, explica.
Para ela, mais do que evitar as telas, o foco está na presença e na qualidade do tempo com os filhos. “Invista em presença, em permitir que eles criem suas próprias brincadeiras. Leiam para seus filhos, tirem um tempo por dia para fazer alguma atividade que desenvolva alguma habilidade”, orienta.
Por isso, ela reforça que o mais importante é garantir tempo de qualidade na rotina das crianças. “Tenham certeza que uma criança em movimento é muito mais benéfico do que uma criança em frente a alguma tela”, conclui.