ESTILO

Moda em 2026 deixa o look certinho de lado e aposta na individualidade

Especialistas apontam como o excesso de tendências nas redes sociais abre espaço para volumes, sobreposições, combinações inesperadas e formas mais autorais de se vestir.

Luyza Rodrigues
19/09/2026 às 18:46.
Atualizado em 19/09/2026 às 18:48

Mais do que uma mudança de silhueta, o movimento aponta para uma vontade de recuperar o prazer de se vestir. Foto: Internet

Por muito tempo, abrir o guarda-roupa parecia significar seguir uma fórmula: cores neutras, cortes precisos, peças básicas e uma combinação cuidadosamente calculada para parecer despretensiosa. O chamado “look certinho” encontrou nas redes sociais um terreno fértil e transformou o minimalismo em uma espécie de linguagem universal. 

 Mas, em 2026, essa estética começa a dividir espaço com roupas volumosas, acessórios marcantes, sobreposições, estampas e combinações que parecem ter sido feitas justamente para não combinar.

 Mais do que uma mudança de silhueta, o movimento aponta para uma vontade de recuperar o prazer de se vestir. Depois de anos em que tendências circularam em velocidade acelerada pelos feeds, a moda passa a flertar novamente com o improviso, a mistura e aquilo que não pode ser facilmente reproduzido. Para Camila Monteiro, estilista, idealizadora e diretora criativa do Atnia Studio, a busca por originalidade também nasce de uma sensação de cansaço.

 “Justamente a falta da originalidade nas peças, seguir tendências em excesso foi criando um tédio na hora de compor um look, ninguém gosta de viver engessado, seguindo tantas regras pra no final acabar igual a todo mundo”, afirma. Segundo ela, o fast fashion também contribuiu para essa sensação de repetição, ao facilitar o acesso às mesmas tendências e peças em grande escala.

 Nesse cenário, o que já existia dentro de casa passa a ganhar novo valor. Brechós, peças vintage e até roupas de familiares entram novamente no radar, não apenas pela estética, mas pela possibilidade de encontrar algo que carregue história. “As peças vintages ganharam destaque, incluindo os brechós e até mesmo o guarda-roupa dos nossos pais, tias, avós. Essa dinâmica de garimpar, além de deixar tudo mais divertido, também traz de volta tendências adormecidas”, explica Camila.

 Quando a moda quebra as regras

Para Neemias Belfort, stylist, diretor criativo e produtor, o retorno do maximalismo também pode ser observado como parte de um comportamento histórico da moda. Em diferentes momentos de instabilidade, segundo ele, a roupa assumiu formas mais exuberantes como uma maneira de escapar da realidade.

 “Historicamente, quando o mundo entra em crise, a moda responde com excessos. Vamos voltar um pouco no tempo? Depois da grande depressão nos anos 30, a moda reagiu com glamour e exageros, pois as pessoas queriam ter essa fuga da realidade. Nos anos 80, com a recessão e as tensões políticas, a moda reagiu com ombros estruturados e cores vibrantes”, explica.

 Na leitura do stylist, o movimento atual também representa uma ruptura com a estética “clean”, que durante anos dominou vitrines, redes sociais e guarda-roupas. Para ele, a aparência neutra acabou associada a uma busca por segurança e pela ideia de não chamar atenção.

 “A estética ‘clean’ era a estética do medo de errar, de não chamar atenção, de ser discreto, de ser neutro. Contudo, depois de um tempo percebemos que esse movimento não era tão neutro quanto sua paleta de cores”, afirma Neemias. Ele também faz uma crítica às origens e aos desdobramentos culturais desse padrão, que considera relacionado a movimentos elitistas e à valorização de determinados padrões estéticos em detrimento da diversidade.

Se o maximalismo aparece como uma possibilidade de ruptura, ele não precisa significar abandonar completamente o que já funciona. A chave, segundo os profissionais, está em descobrir quais elementos fazem sentido para cada pessoa e experimentar a partir deles.

 “Você precisa se conhecer bem e acima de tudo se permitir, saiba as modelagens que lhe caem bem, cores que lhe favorecem e brinque com a quebra de expectativa a partir disso”, orienta Neemias. Para exemplificar, ele sugere combinações improváveis, como uma saia drapeada com camisa de time e tênis ou uma calça jeans com vestido fluido, blazer e chinelo de dedos.

 O guarda-roupa como laboratório

Construir um estilo próprio não significa necessariamente comprar mais. Muitas vezes, a mudança começa justamente pelas peças que já estão no armário. Para Camila, uma roupa antiga pode ganhar outra vida por meio do chamado upcycling, técnica que propõe transformar ou reutilizar peças existentes.

 “Sabe aquele jeans guardado que você ama, mas já usou e abusou? Então, que tal transformar ele em um jeans novo? Você tem várias opções, como tingir, pintar, cortar, bordar”, sugere. A estilista também destaca a possibilidade de recorrer a costureiras para modificar peças e criar novas possibilidades a partir do que já existe.

 Além de reduzir a necessidade de novas compras, a prática pode preservar o valor afetivo das roupas. Uma peça pode ser modificada, atravessar diferentes momentos da vida e continuar carregando a história de quem a vestiu. “Além de ser sustentável, você consegue manter o apego sentimental pelas peças que podem passar de geração em geração e, claro, confeccionando uma peça que somente você vai ter”, afirma Camila.

 Outra ferramenta para escapar da sensação de repetição está no styling. Sobreposições, misturas de texturas e combinações entre peças sofisticadas, casuais ou esportivas podem mudar completamente a leitura de uma mesma roupa. Para Neemias, pequenos elementos já são capazes de transformar uma produção.

 “Você pode começar com mix de acessórios, um colar de pérolas com alguns colares de correntes usados juntos, apostar em pulseiras que você já tenha ou em algo que tenha no seu guarda-roupa que pode virar uma pulseira, como uma faixa, um lenço, um cordão”, explica.

 A mesma lógica vale para estampas e acessórios. Uma camisa branca pode ganhar outra leitura com um lenço sobreposto, enquanto um blazer pode ser transformado pelo uso de broches diferentes — ou até mesmo brincos usados como broches. São pequenas interferências que tiram a roupa do lugar comum sem exigir um armário completamente novo.

 No fim, talvez o maior rompimento com o “look certinho” não esteja em abandonar o minimalismo ou aderir integralmente ao maximalismo. Está em deixar de vestir uma fórmula pronta. “Ter personalidade na moda não é você sempre se adequar às tendências e sim adequar as tendências ao seu estilo pessoal”, resume Neemias. A pergunta, segundo ele, passa a ser outra: “O que da moda maximalista se encaixa no meu estilo? Cores? Volumes? A partir daí você vai ter as respostas.”

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