Dia mundial da poesia

Poesia ganha novos formatos nas redes, mas enfrenta dilema entre alcance e profundidade

Autores apontam limites do consumo digital e defendem que plataformas sejam porta de entrada (e não substitutas) da experiência literária

Gabrielly Gentil
21/03/2026 às 17:18.
Atualizado em 21/03/2026 às 17:33

André Piñero lançou seu segundo livro, ‘Leviatãzinho’, de forma independente (Divulgação)

A poesia, tradicionalmente associada às páginas dos livros, tem encontrado novos caminhos nas redes sociais. Em plataformas como Instagram e TikTok, os versos circulam em formatos mais curtos, visuais e imediatos, acompanhando a lógica acelerada do consumo digital. Nesse cenário, poetas contemporâneos se veem diante de um dilema: como adaptar a linguagem poética sem perder a profundidade da experiência literária?

No Dia Mundial da Poesia, celebrado neste sábado (21), o BEM VIVER TV conversou com autores que utilizam as redes como meio de divulgação, mas refletem sobre os limites, as possibilidades e as tensões desse novo espaço de circulação da poesia.

Entre o livro e o feed

O professor e poeta André Piñero, natural de Belém e radicado em Manaus há seis anos, começou sua trajetória na poesia ainda como leitor, influenciado por textos que encontrou na escola. A escrita veio na adolescência, ao compor letras para uma banda, que mais tarde percebeu se aproximarem da linguagem poética. Anos depois, reuniu esses textos e lançou o primeiro livro, e hoje desenvolve uma escrita marcada por versos longos, ritmo intenso e influências do rap e do jazz, com foco em provocar e deslocar o leitor.

Ao lançar “Leviatãzinho” de forma independente, André passou a usar as redes sociais para divulgar o segundo livro. Nesse processo, encontrou nas plataformas um espaço de circulação, ainda que com limitações. No Instagram, compartilha conteúdos sobre o trabalho e, às vezes, trechos dos poemas. Por escrever textos mais longos, não se identifica com o formato da “instapoesia”, preferindo adaptar apenas fragmentos. Ainda assim, uma publicação alcançou cerca de 12 mil visualizações e esgotou a primeira tiragem de 75 exemplares.

Alcance não é leitura

Apesar dos resultados positivos, André não percebe nas redes uma experiência completa de leitura. “Acredito que [a plataforma] possa ser interessante como porta de entrada para a poesia. O grande problema é que muitas vezes, aquilo acaba ali. Em uma época em que a leitura é performance, postar um poema no Story parece o ápice, e não é. A gente precisa ler as obras, os livros inteiros, discutir sobre eles, provocar”, reflete o autor.

Essa percepção dialoga com uma visão mais ampla sobre o papel das redes na formação de leitores. Para André, mesmo que os poemas curtos não sejam sua preferência, as plataformas oferecem possibilidades para explorar a poesia de maneiras diferentes. “Tem página boa que consegue fugir desse processo de poeminhas, e cria um arquivo interessante de poesia. A Revista Peixe Boi é uma delas. Nesse sentido, para que uma poesia mais extensa, mais maximalista, funcione nas redes é preciso pensar a divulgação desse formato, dessa estrutura. Mas, como poeta, penso que dá pra ser criativo. Acho que a figura do poeta recluso que odeia tudo o que é novo tem que ser deixada um pouco de lado, para que a gente possa criar uma persona que possa ser vista e por fim, lida”, conclui.

O que se perde na tela

Aritana é campeã do Slam Dina Di, batalha de poesia organizada e protagonizada por mulheres e pessoas LGBTI+

Se, por um lado, há uma adaptação necessária ao ambiente digital, por outro, a experiência da poesia também se transforma, especialmente quando nasce da performance. Aritana Tibira, escritora, poeta, drag e artista da palavra, construiu sua trajetória atravessada pela oralidade, pelo corpo e pelo diálogo entre a rua e o espaço acadêmico. Doutoranda em Literatura, Artes e Comunicação na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ela se consolidou no slam, as batalhas de poesia falada que democratizam o acesso à literatura e permitem que vozes marginais sejam ouvidas.

Aritana destaca que sua poesia nasce da performance e do corpo, elementos que não se traduzem totalmente nas redes sociais. Para ela, parte da energia do momento e da interação com o público se perde nos vídeos.

“O vídeo consegue registrar algo, mas ele não dá conta da energia do momento, da troca com o público, do improviso do ambiente. O olho no olho. Por isso, eu penso os conteúdos digitais mais como fragmentos, convites, rastros do que acontece ao vivo. Eu posto trechos, cortes, pequenos recortes das minhas poesias. Não costumo publicar vídeos com meus textos e performances completas justamente porque entendo que a experiência da poesia falada é presencial, é afetiva, é construída ali, na relação direta com quem está assistindo”.

Essa diferença entre o presencial e o digital também aparece na forma como o público se relaciona com a poesia. “Eu percebo que, no presencial, há uma escuta mais comprometida. A pessoa para, olha, sente, reage. Já no digital, a disputa por atenção é constante. Ainda assim, as redes têm sido importantes para criar pontes, divulgar eventos e fazer com que mais pessoas cheguem até os espaços onde a poesia acontece de forma mais inteira”, complementa a artista.

Adaptação e resistência

Ao mesmo tempo em que reconhece o alcance das redes, Aritana chama atenção para os limites desse espaço. “Muitas vezes, as lógicas das plataformas acabam moldando a escrita: textos mais curtos, mais imediatos, mais ‘compartilháveis’. Isso não é necessariamente negativo, mas pode limitar certas complexidades da linguagem poética. No meu caso, eu tento não deixar que o formato da rede determine a minha escrita. Eu uso as plataformas como meio de circulação, não como fim”, conclui.

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