Ao transformar o fato em romance, o autor teve alguns cuidados para equilibrar fidelidade histórica, imaginação literária e respeito às pessoas envolvidas.
(Foto: Divulgação)
Jornalista, escritor e ex-diretor de redação do Jornal A CRÍTICA, Wilson Nogueira conta os dias para lançar a sua nova obra autoral: “Do outro lado do Sol”, baseada em um caso real ocorrido, há décadas, na Vila Amazônia. O livro será lançado oficialmente, no dia 7 de março, às 10h, na Valer Teatro (Rua José Clemente, Centro).
Em entrevista ao BEM VIVER desta quinta-feira (26), Nogueira falou sobre o novo trabalho, inspirado em um episódio brutal: o massacre da família Hidaka-Kimura, ocorrido, em 1956, em Barreirinha. Ao transformar o fato em romance, o autor teve alguns cuidados para equilibrar fidelidade histórica, imaginação literária e respeito às pessoas envolvidas.
“Orientei-me pelos depoimentos de dois sobreviventes. Digo sobreviventes, porque estavam fora de casa quando o massacre ocorreu. Também eram crianças e pouco poderiam fazer, imagino, para se proteger. Mesmo assim, advirto que se trata de uma narrativa inspirada em fato”, destacou Nogueira.
(Foto: Divulgação)
Segundo o próprio autor, não há uma delimitação de tempo e espaço para o momento em que a trágica história deixou de ser apenas memória coletiva e passou a exigir uma ficção para ser contada.
“Penso que os dois fenômenos se embrincaram até se tornarem um só. Isso ocorre porque, desde o fato, houve um imediato aguçamento do imaginário das pessoas afetadas direta e indiretamente afetadas por elas. Trata-se de um crime horroroso, ocorrido com uma família de japoneses que morava nas margens de um rio amazônico então pouco habitado. Depois, estamos falando do pós-guerra de 1945, quando os imigrantes dos países que lutaram pelos interesses do Eixo, liderados pela Alemanha, sofreram campanha de ódio e perseguição”, explicou.
“Não sei como poderia ter sido feita uma narração de fato, caso eu tivesse localizado o processo judicial do caso. Não o encontrei, apesar dos esforços”, acrescentou Nogueira.
PERSONAGEM
A Vila Amazônia surge quase como uma personagem em “Do outro lado do Sol”, com camadas sociais, afetivas e simbólicas sendo reveladas, pelo autor, aos leitores. “A Vila mexe com o meu coração, é um lugar bonito do qual tenho muitas recordações. Olha só: eu acompanhava meu pai quase todos os dias nas suas viagens de cano, entre Parintins e a Vila, para vender pão. Quanto ao simbólico, acho que o livro ficaria em falta com o leitor sem as alegorias tecidas pelo imaginário que mora na ilha e no seu entorno”.
Mesmo ambientado no passado, a narrativa do livro dialoga com questões muito atuais da Amazônia. Nogueira espera, inclusive, que esta característica faça com que o público trace alguns paralelos ao atravessar a história. “Espero que o leitor faça uma reflexão a respeito da necessidade de conhecermos a nossa história, já estaria de bom tamanho. Isso porque as grandes narrativas, geralmente orientadas por uma história retinha, selecionam fatos e acontecimentos que acham importantes e sepultam o ‘resto’. O perigo da história única está exatamente aí”, pontuou.
“Para além de gerar uma ficção, espero que este livro paute, também, trabalhos de pesquisa histórica, sociológica, antropológica etc.”, completou o autor.