Atletismo

Calor desafia atletas na Vila Olímpica de Manaus

Altas temperaturas exigem mudanças na rotina de treinos dos atletas da Vila Olímpica

Jéssica Santos
20/09/2026 às 12:20.
Atualizado em 20/09/2026 às 12:45

Treinos têm sido adaptados para que atletas suportem o calor que faz na capital amazonense (Daniel Brandão)

O calor extremo sentido na pele diariamente pelos amazonenses e a fumaça das queimadas na região têm modificado a rotina de treinamentos e de recuperação dos atletas do estado. Treinadores explicam as mudanças que têm feito para amenizar os efeitos do clima desafiador, e especialistas explicam por que estamos sentindo cada vez mais as altas temperaturas, especialmente em Manaus.

Para fugir das altas temperaturas que afetam o rendimento dos atletas, as atividades na Vila Olímpica de Manaus, no bairro Dom Pedro, precisaram ser readequadas. A treinadora olímpica, Margareth Bahia, explicou como tem lidado com o cenário atual.

"Temos tentado treinar um pouco mais tarde a parte técnica ou iniciado o treino mais cedo quando a gente precisa fazer de manhã. Mas a gente está tendo dificuldade, principalmente o pessoal do lançamento de dardo, porque o campo fica extremamente ressecado", explica ela.

Bairro Dom Pedro, onde fica localizada a Vila Olímpica, registra a maior temperatura de superfície da capital, em um padrão térmico que já atinge mais de 85% dos moradores de Manaus.

 De acordo com a treinadora, há uma equipe trabalhando na irrigação do campo da Vila Olímpica, serviço solicitado pela Federação Desportiva de Atletismo do Estado do AM (Fedaeam) logo no início do verão, mas o resultado não têm sido satisfatório.

"Eu acabei pedindo a eles para que, nos dias do treino técnico de dardo, priorizassem o espaço onde geralmente o dardo cai. Não só para o Pedro (Nunes, atleta olímpico), mas para os outros atletas. Então são três pontos básicos no campo, mas, dependendo do dia, parece que a força da água está muito fraca".

Ainda segundo Margareth, outra situação que exige atenção é o volume e a própria intensidade do treino.

"A gente tem tentado conversar com os meninos e as meninas para que eles levem sua água, mas nem sempre é o suficiente. Então o treino fica comprometido sim, porque a gente tem que fazer alteração, tem que reduzir. Quando a gente percebe que o atleta não está em condições, a gente acaba parando o treino mesmo".

A treinadora sente claramente a mudança climática acontecendo ao longo dos anos, com calor e fumaça em níveis mais altos, que levam a mudanças na rotina dos desportistas do Estado.

"Em anos anteriores, havendo queimada, a gente suspendeu o treinamento geral e em alguns momentos, quando era extremamente necessário, utilizávamos máscara. O que mais temos feito é empurrado o treino mais para o finalzinho da tarde, a partir das 16h30, 17h, para o início da noite, antes treinávamos a partir de 15h30", pontuou.

Atletas têm treinando no fim da tarde como forma de driblar o calor extremo

 Assim, ela nota que desportistas de várias provas do atletismo têm sentido os desafios trazidos pelo calor: "os atletas de salto também são afetados porque logo cedo a areia fica muito, muito quente. E os de corrida também, já estive conversando com os professores", relatou Margareth.

Além de prejudicar a técnica, o calor excessivo também pode quebrar o equipamento. "O dardo já chegou a quebrar por conta do campo extremamente ressecado. O disco também pode quebrar, mas o dardo é mais vulnerável.

Assim, a equipe busca alternativas para abrandar o ambiente e garantir a continuidade das práticas. "Fizemos uma aquisição de duas mangueiras de irrigação de 100 metros cada uma, porque o ambiente fica extremamente seco, lá. A região do Dom Pedro é uma das mais quentes da cidade de Manaus. Então, é isso, tem atrapalhado um pouco sim, e por vezes é suspenso o treinamento inteiro. Esse ano ainda não foi necessário, mas em anos anteriores a gente já precisou fazer isso diante das queimadas", concluiu a professora.

Corredores também tentam se adaptar

Thiago de Melo é responsável pelo treinamento de velocistas e também dos que se preparam para provas de fundo e meio-fundo, além de corredores de rua, nas diversas distâncias. Entretanto, no quesito tempo e local de treinamento, os atletas estão precisando manter o padrão de fugir do calor e da fumaça, nesta época do ano, independente de suas especialidades no atletismo.

Treinadora Margareth Bahia

"Nosso treino horário de treino é 16h, no máximo 16h30, mas este ano já coloquei 17h e dependendo do treino ainda começa até 17h30, por causa do calor. Treino de academia hoje realizamos na faculdade Estácio, que tem ar condicionado, uma infraestrutura boa para os atletas", relata o treinador.

 Além disso, ele explica que boa parte dos atletas estão iniciando a temporada neste momento do ano, e, devido ao calor, os ritmos estão mais lentos: "tudo isso para eles não sofrerem. Poucos atletas irão competir nesse momento, então o volume de treino está mais baixo e a intensidade alta, enquanto a duração do treinamento está por volta de 1h, nada mais do que isso", detalhou Thiago.

Entenda porquê Manaus se transforma numa ilha de aquecimento térmico

O fenômeno da ilha de calor urbana é resultado direto da forma como as cidades absorvem, armazenam e deixam de dispersar a energia solar. Em Manaus, a combinação de infraestrutura cinza e a perda de cobertura vegetal elevou as temperaturas a níveis preocupantes em grande parte do território urbano.

De acordo com o professor Leonardo, o processo ocorre devido a três fatores principais. O primeiro é a alta absorção do asfalto e dos telhados escuros, que refletem pouca luz. O segundo é a retenção do calor pelas estruturas de concreto e asfalto durante o dia, liberado gradualmente durante o período noturno. "Por isso a madrugada em Manaus não esfria mais como esfriava", explica o pesquisador.

Treinador Thiago Melo

 O terceiro fator está ligado à falta de vegetação. As árvores desempenham papel crucial no equilíbrio térmico ao interceptar a radiação solar com a copa e ao realizar a evapotranspiração, processo em que a evaporação da água das folhas retira calor do ambiente.

"Uma árvore adulta é, literalmente, um ar-condicionado natural movido a água", destaca o professor. "Quando você substitui essa cobertura por asfalto e telhado, você desliga os dois mecanismos ao mesmo tempo: entra mais calor e sai menos. É isso que produz bairros vários graus mais quentes que a floresta ao lado".

Impactos nos bairros e na população

Um levantamento da InfoAmazonia com dados de satélite revela os efeitos práticos desse padrão. O bairro Dom Pedro registra a maior temperatura de superfície de Manaus, atingindo cerca de 5,4 °C a mais do que a Reserva Ducke, por exemplo. Embora a temperatura de superfície difira da temperatura do ar, é ela quem aquece o solo e afeta diretamente os pedestres.

O impacto, contudo, não é isolado: mais de 85% dos moradores de Manaus vivem em áreas pelo menos 3 °C mais quentes do que a vegetação nativa vizinha. O contraste térmico afeta a maior parte do perímetro urbano, evidenciando um modelo estrutural de ocupação.

"Não é um problema de um bairro. É o padrão da cidade", conclui Leonardo.
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