Altas temperaturas exigem mudanças na rotina de treinos dos atletas da Vila Olímpica
Treinos têm sido adaptados para que atletas suportem o calor que faz na capital amazonense (Daniel Brandão)
O calor extremo sentido na pele diariamente pelos amazonenses e a fumaça das queimadas na região têm modificado a rotina de treinamentos e de recuperação dos atletas do estado. Treinadores explicam as mudanças que têm feito para amenizar os efeitos do clima desafiador, e especialistas explicam por que estamos sentindo cada vez mais as altas temperaturas, especialmente em Manaus.
Para fugir das altas temperaturas que afetam o rendimento dos atletas, as atividades na Vila Olímpica de Manaus, no bairro Dom Pedro, precisaram ser readequadas. A treinadora olímpica, Margareth Bahia, explicou como tem lidado com o cenário atual.
Bairro Dom Pedro, onde fica localizada a Vila Olímpica, registra a maior temperatura de superfície da capital, em um padrão térmico que já atinge mais de 85% dos moradores de Manaus.
De acordo com a treinadora, há uma equipe trabalhando na irrigação do campo da Vila Olímpica, serviço solicitado pela Federação Desportiva de Atletismo do Estado do AM (Fedaeam) logo no início do verão, mas o resultado não têm sido satisfatório.
"Eu acabei pedindo a eles para que, nos dias do treino técnico de dardo, priorizassem o espaço onde geralmente o dardo cai. Não só para o Pedro (Nunes, atleta olímpico), mas para os outros atletas. Então são três pontos básicos no campo, mas, dependendo do dia, parece que a força da água está muito fraca".
Ainda segundo Margareth, outra situação que exige atenção é o volume e a própria intensidade do treino.
A treinadora sente claramente a mudança climática acontecendo ao longo dos anos, com calor e fumaça em níveis mais altos, que levam a mudanças na rotina dos desportistas do Estado.
Atletas têm treinando no fim da tarde como forma de driblar o calor extremo
Assim, ela nota que desportistas de várias provas do atletismo têm sentido os desafios trazidos pelo calor: "os atletas de salto também são afetados porque logo cedo a areia fica muito, muito quente. E os de corrida também, já estive conversando com os professores", relatou Margareth.
Além de prejudicar a técnica, o calor excessivo também pode quebrar o equipamento. "O dardo já chegou a quebrar por conta do campo extremamente ressecado. O disco também pode quebrar, mas o dardo é mais vulnerável.
Assim, a equipe busca alternativas para abrandar o ambiente e garantir a continuidade das práticas. "Fizemos uma aquisição de duas mangueiras de irrigação de 100 metros cada uma, porque o ambiente fica extremamente seco, lá. A região do Dom Pedro é uma das mais quentes da cidade de Manaus. Então, é isso, tem atrapalhado um pouco sim, e por vezes é suspenso o treinamento inteiro. Esse ano ainda não foi necessário, mas em anos anteriores a gente já precisou fazer isso diante das queimadas", concluiu a professora.
Thiago de Melo é responsável pelo treinamento de velocistas e também dos que se preparam para provas de fundo e meio-fundo, além de corredores de rua, nas diversas distâncias. Entretanto, no quesito tempo e local de treinamento, os atletas estão precisando manter o padrão de fugir do calor e da fumaça, nesta época do ano, independente de suas especialidades no atletismo.
Treinadora Margareth Bahia
Além disso, ele explica que boa parte dos atletas estão iniciando a temporada neste momento do ano, e, devido ao calor, os ritmos estão mais lentos: "tudo isso para eles não sofrerem. Poucos atletas irão competir nesse momento, então o volume de treino está mais baixo e a intensidade alta, enquanto a duração do treinamento está por volta de 1h, nada mais do que isso", detalhou Thiago.
O fenômeno da ilha de calor urbana é resultado direto da forma como as cidades absorvem, armazenam e deixam de dispersar a energia solar. Em Manaus, a combinação de infraestrutura cinza e a perda de cobertura vegetal elevou as temperaturas a níveis preocupantes em grande parte do território urbano.
De acordo com o professor Leonardo, o processo ocorre devido a três fatores principais. O primeiro é a alta absorção do asfalto e dos telhados escuros, que refletem pouca luz. O segundo é a retenção do calor pelas estruturas de concreto e asfalto durante o dia, liberado gradualmente durante o período noturno. "Por isso a madrugada em Manaus não esfria mais como esfriava", explica o pesquisador.
Treinador Thiago Melo
O terceiro fator está ligado à falta de vegetação. As árvores desempenham papel crucial no equilíbrio térmico ao interceptar a radiação solar com a copa e ao realizar a evapotranspiração, processo em que a evaporação da água das folhas retira calor do ambiente.
Impactos nos bairros e na população
Um levantamento da InfoAmazonia com dados de satélite revela os efeitos práticos desse padrão. O bairro Dom Pedro registra a maior temperatura de superfície de Manaus, atingindo cerca de 5,4 °C a mais do que a Reserva Ducke, por exemplo. Embora a temperatura de superfície difira da temperatura do ar, é ela quem aquece o solo e afeta diretamente os pedestres.
O impacto, contudo, não é isolado: mais de 85% dos moradores de Manaus vivem em áreas pelo menos 3 °C mais quentes do que a vegetação nativa vizinha. O contraste térmico afeta a maior parte do perímetro urbano, evidenciando um modelo estrutural de ocupação.