Movimento organizado por pastorais sociais e entidades da sociedade civil contou com feira de economia criativa no Inpa e passeata até a Bola do Coroado nesta segunda-feira (7)
Grito dos Excluídos deste ano foi organizado em um formato diferente, com uma feira de economia criativa ao longo de todo o dia, instalada na sede do Inpa (Foto: Nilton Ricardo)
Realizado tradicionalmente no 7 de Setembro, Dia da Independência do Brasil, pelas pastorais sociais da Igreja Católica, em parceria com movimentos sociais da sociedade civil, o Grito dos Excluídos e das Excluídas chega à sua 32ª edição com o tema “Vida em Primeiro Lugar. Na Defesa da Terra, da Paz e da Moradia. Erguemos a Voz: Mulheres Viva e Soberania”.
Manaus, como uma das capitais que nunca deixaram de participar do movimento nacional ao longo destes 32 anos, este ano organizou um formato diferente, com uma feira de economia criativa ao longo de todo o dia, instalada na sede do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa), com a tradicional passeata saindo de lá para Bola do Coroado, às 15h.
Vice-presidente da Cáritas Arquidiocesana de Manaus, assessor das pastorais sociais da Igreja Católica em Manaus e um dos coordenadores do Grito dos Excluídos e da Excluídas em Manaus, o padre José Alcimar destacou a inclusão das mulheres no tema deste ano. “A gente não pode, mesmo como homens, se calar diante do feminicídio que acontece em todo o Brasil, aumentou bastante a morte das mulheres, o desrespeito em relação às mulheres, então é importante que a gente levante a voz com as mulheres para denunciar e resistir a violência contra elas”, afirmou.
O padre José Alcimar lembrou também que, dentre os temas deste ano, que tem como temática central a “Vida em Primeiro Lugar”, a questão da moradia também ganhou destaque. “Embora a gente saiba que tem um projeto do atual governo federal, que tem expandido a questão da moradia, quando se trata de município e estado, isso não tem correspondido. Então a gente percebe que também tem 35 mil famílias com ordem de despejo, isso significa mais de 100 mil pessoas, na verdade”, pontuou.
“Então é muita gente que pode ser despejada, isso significa sofrimento de mães, de homens, de crianças, de idosos e de mulheres”, afirmou o padre, acrescentando que a paz também faz parte do tema deste ano. “No mundo, a gente está vivendo um tempo de guerra. É importante que a gente se coloque e reze para procurar caminhos de paz”, disse.
O padre destacou ainda a questão da soberania, que também faz parte do guarda-chuva de temas deste ano. “Todo mundo está ouvindo pela mídia social, pelas redes sociais, pela grande imprensa, a interferência americana em toda a América Latina, a gente sabe que tem uma rede de países alinhados com os Estados Unidos cercando o Brasil e o Brasil precisa realmente manter a sua soberania e é muito importante aquilo que o governo vem fazendo. Quando dá certo a gente tem que apoiar”, disse.
O sacerdote pontuou que a relação dos Estados Unidos com os países latino-americanos é sempre de dominação e de exploração e nunca de parceria. “Então é importante que a gente se coloque também, que resista a esse tipo de política. O grito também é um espaço aberto para todos os outros gritos, como a educação, da saúde aqui no Amazonas, que esses dois gritos são extremamente importantes, são basilares da sociedade”, declarou.
Indagado sobre o verdadeiro sentido do Grito dos Excluídos e das Excluídas, o padre afirmou que sempre foi a resistência e a esperança. “Significa que a gente nunca se calou e nunca se acostumou com essa realidade que está aí. Ao mesmo tempo, ele é uma manifestação que agrega os outros movimentos. Embora a igreja puxe, mas a gente não é fechada para a sociedade organizada, civil, que também resiste e que também tem esperança e que também luta”, afirmou.
Coordenadora das Pastorais Sociais da Igreja Católica no Amazonas, Guadalupe Péres também ressaltou a inclusão das mulheres no tema deste ano. “É necessário falar das mulheres, principalmente mulheres vivas, porque a gente vive um momento muito triste no Brasil de mortes das mulheres, de feminicídio muito grande e violência contra as mulheres”, declarou.
“Então a gente tem que dar um basta nisso tudo, as mulheres são soberanas, as mulheres têm também presença firme dentro da igreja, nos movimentos sociais, estão sempre à frente de alguma pastoral. Então é muito interessante quando a gente vê acontecer dentro da nossa casa, dentro da nossa igreja, nas nossas comunidades, nos nossos movimentos, as mulheres perdendo a vida por feminicídio”, pontuou.
Guadalupe destacou que o trabalho das pastorais sociais não se limita ao Grito dos Excluídos e das Excluídas. “Nós temos 17 pastorais sociais, mas nós temos movimentos organizados. E é importante que a gente esteja ocupando esses espaços, porque nós verdadeiramente olhamos não só para nós, mas para as pessoas que estão ao nosso redor, aquelas pessoas que estão lá na periferia, os excluídos dos excluídos”, disse.
A edição 2026 do Grito dos Excluídos e Excluídas marcou também a adesão do Sindicato dos Professores e Pedagogos de Manaus (Asprom Sindical) ao movimento. A professora Helma Sampaio, coordenadora administrativa do sindicato, defendeu a importância da educação na formação da cidadania.
“Não existe um Brasil justo sem educação. Sem uma educação libertadora, uma educação integral, uma educação que leve as pessoas a refletirem sobre a sua realidade e construírem a sua própria história. Então nós estamos aqui nesse grito porque a educação de qualidade integral é um grito hoje. Nós temos muitos problemas na educação, muitas mazelas que nós vivenciamos todos os dias, alunos e professores”, afirmou, reivindicando a responsabilidade tanto dos governos, municipal e estadual, e da sociedade em geral, para se envolver no grito em defesa da educação pública.