Especialistas avaliaram que o conflito tende a afetar o país, que importa parte da produção, mas que há meios de driblar o problema
Os EUA e Israel lançaram ataques contra o Irã, matando o líder supremo do país e os principais líderes militares, o que levou à retaliação com ataques contra Israel e em toda a região do Golfo (Foto: AFP)
O conflito no Irã desencadeado com o bombardeio pelos Estados Unidos e Israel no último fim de semana pode ter consequências para a economia do Brasil, já que existe o risco do estreio de Ormuz, por onde circula 20% da produção mundial do petróleo, ter sua passagem fechada. Especialistas consultados por A CRÍTICA apontam que a chance de a guerra ter consequências no país é real, mas existem meios de lidar com a questão.
Para a economista Denise Kassama, o caos na região deve provocar uma retração da produção do petróleo a nível mundial, com países como Arábia Saudita e Kuwait reduzindo sua participação por medo de serem alvos de bombardeios.
“Não só por conta da questão do estreito de Ormuz, mas há o risco de esse conflito afetar a produção global de petróleo. Isso vai gerar uma redução na oferta de petróleo no mundo e, provavelmente, vai gerar inflação no mundo, inclusive no Brasil, que importa parte do seu petróleo”, destacou.
Ela ressaltou que o país, por outro lado, tem alternativas para suprir a possível queda na oferta do petróleo, como os biocombustíveis. Uma das possibilidades é o etanol, produzido a partir da cana-de-açúcar.
“Houve uma grande safra de cana-de-açúcar e, como o mercado de açúcar está em baixa, vão converter isso para álcool. Isso vai ampliar a oferta de álcool para combustível no mercado e minimizar um pouco esse impacto, mas há um risco de disparada no barril do petróleo no mundo inteiro e, consequentemente, vai nos afetar também”, completou.
A economista Michele Aracaty pontuou que, além dos impactos na produção, deverá haver um atraso no corte das taxas de juros pelo Conselho de Política Monetária (Copom), que “avalia os riscos do cenário macroeconômico nacional e internacional”.
“O Brasil será muito impactado com esse conflito, principalmente o agronegócio na compra de fertilizantes e venda de produtos do agro. Irã e Israel, compramos ureia deles”, disse.
A ureia é um dos ingredientes utilizados na fabricação dos fertilizantes utilizados nas plantações brasileiras, especialmente as monoculturas de exportação como a soja. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o Brasil comprou R$ 420 milhões em insumos agrícolas do Irã, sendo que quase R$ 330 milhões foram direcionados para quase 185 mil toneladas de ureia, embora não esteja no pódio dos exportadores do item ao país.
‘Mesmo distante, mexe com nossas vidas’
Para o sociólogo e cientista político Raimundo Nonato Pereira da Silva, diretor do Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a guerra desencadeada aponta para interesses econômicos muito específicos. Ele ressalta que a guerra, mesmo que distante, mexe com a vida da população, especialmente de baixa renda, lembrando impacto provocado pela crise do petróleo nos anos 1970.
“Dois pontos merecem destaques: o primeiro tem a ver coma a expansão do controle sobre a produção do petróleo. Expansão porque os EUA têm vários países produtores de petróleo que são seus aliados. O outro ponto é o controle que o Irã tem sobre o estreito de Ormuz. O escoamento de boa parte do petróleo passa pelo estreito”, lembrou.
Com a guerra instalada na região e considerando a importância do petróleo para a economia mundial, principalmente para potências como Estados Unidos e China, “duas das maiores economias do mundo, isso afeta diretamente no preço do barril do petróleo”, tornando o produto mais escasso e encarecendo o que já está no mercado.
“Em ano de eleição, os efeitos da guerra geram uma situação difusa. O pré-candidato a eleição de 2026 [Flávio Bolsonaro] publicamente apoia ação dos EUA e Israel. O governo, que pretende se lançar à reeleição, condena o ataque ao Irã. O segundo age com pragmatismo em razão do Irã fazer parte do BRICS e ser um dos principais parceiros do Brasil. O primeiro não visualiza a relação comercial com o Irã, mas indica seu alinhamento político à política intervencionista do governo Trump”, analisou.
O professor também avalia que o alastramento da guerra fará com que o Banco Central do Brasil mude seu olhar sobre manter ou baixar a taxa de juros. Na última reunião do Copom, foi dada a expectativa de que haveria quedas a partir do mês de março. Contudo, “em função do provável e iminente aumento da inflação em decorrência do aumento dos preços da gasolina e do diesel”, isso pode ser repensado.
“O governo deverá politicamente tomar algum tipo de medida a curto e médio prazo para evitar os impactos da guerra sobre a inflação, isso lhe garantirá dividendos políticos. O outro lado colocará em pauta o viés ideológico, afirmando que o Irã financia grupos terroristas, destacando que o atual governo apoia o Irã e, por extensão, os citados grupos”, previu.