Altas temperaturas exigem atenção redobrada com a pele e a pelagem dos cães. Tosa excessiva, banhos frequentes e umidade podem, ao contrário do que muitos tutores imaginam, aumentar o risco de problemas dermatológicos
(Foto: Divulgação)
Quando os termômetros sobem, ventilador, ar-condicionado, roupas leves e muita água ajudam os humanos a enfrentar os dias mais quentes. Para os cães, principalmente aqueles de pelagem longa ou densa, a sensação de desconforto também pode aumentar. E é justamente nessa época que muitos tutores recorrem à solução aparentemente mais óbvia: tosar o animal o máximo possível.
A estratégia, porém, nem sempre é a mais indicada.
Embora pareça contraditório, os pelos também exercem uma função importante na proteção da pele e no isolamento térmico. Dependendo da raça e do tipo de pelagem, retirar essa camada de forma excessiva pode deixar o animal mais exposto à radiação solar e interferir na capacidade natural de lidar com as altas temperaturas.
Em regiões de clima quente e úmido, como o Amazonas, os cuidados precisam ir além da tesoura. A combinação de temperaturas elevadas, umidade, pelos densos, banhos e secagem inadequada exige atenção especial, sobretudo em animais que já apresentam predisposição a alterações dermatológicas.
A PELE DÁ SINAIS
Coceira persistente, vermelhidão, descamação, mau cheiro, pequenas feridas, áreas úmidas, queda localizada de pelos e o hábito de lamber ou morder excessivamente determinada região do corpo não devem ser encarados apenas como consequência natural do calor.
Calor e umidade podem favorecer ou agravar problemas de pele em animais predispostos. Cães com muitas dobras também merecem atenção especial, já que essas regiões podem reter umidade e favorecer a proliferação de bactérias e leveduras.
As orelhas entram nessa rotina de observação. Coceira, odor, vermelhidão ou secreção são sinais que merecem avaliação veterinária, principalmente em animais com histórico de otites.
Outro ponto importante é a secagem depois do banho. Deixar a pelagem úmida, sobretudo nos cães muito peludos, pode favorecer alterações cutâneas. Mais do que simplesmente aumentar a frequência dos banhos nos períodos quentes, é importante utilizar produtos específicos para animais e garantir uma secagem adequada.
TOSAR NEM SEMPRE REFRESCA
Nem todo cachorro de pelo longo precisa ser tosado rente para enfrentar o calor. Algumas raças possuem pelagem dupla, formada por camadas que exercem funções diferentes e participam do isolamento térmico do animal.
A médica-veterinária Ashley Navarrette, professora clínica da Texas A&M University, nos Estados Unidos, chama atenção justamente para esse cuidado. Segundo ela, “tosar completamente um cão geralmente não é necessário, a menos que existam pelos embaraçados”. Para animais de pelo longo, aparar pode facilitar o manejo da pelagem, mas o procedimento deve ser realizado por um profissional para reduzir o risco de lesões.
A especialista destaca ainda que cães de pelagem dupla, como Husky Siberiano, Labrador, Pastor Australiano e Lulu da Pomerânia, possuem uma camada que funciona como isolamento natural e auxilia na termorregulação. Nesses animais, a retirada excessiva dos pelos pode inclusive alterar a maneira como a pelagem volta a crescer.
Em vez de recorrer automaticamente à máquina de tosa, a escovação frequente pode ser uma grande aliada. A retirada dos pelos mortos ajuda na manutenção da pelagem e permite que o tutor observe com maior facilidade eventuais alterações na pele.
Por isso, a decisão sobre a tosa deve considerar raça, tipo de pelo, idade, estilo de vida e condições dermatológicas. Não existe uma regra única para todos os cães.
PROTEÇÃO COMEÇA NA ROTINA
Nos dias mais quentes, cuidar da pele e da pelagem faz parte de uma atenção mais ampla ao conforto térmico. Água limpa e fresca deve estar sempre disponível, e os passeios precisam ser concentrados nos períodos mais amenos do dia. O asfalto também merece cuidado: superfícies aquecidas podem provocar queimaduras nas patas.
A própria Ashley Navarrette recomenda que os passeios sejam feitos no início da manhã ou no final do dia e lembra que não é apenas a temperatura do ar que deve ser considerada. Umidade, temperatura do asfalto, idade, condição de saúde e características físicas do animal também interferem na tolerância ao calor.
Ambientes ventilados e com sombra são essenciais, especialmente para cães idosos, obesos, braquicefálicos, aqueles de focinho curto e animais que apresentam alguma condição de saúde. Cães braquicefálicos estão entre os que apresentam maior vulnerabilidade ao superaquecimento.
E há um alerta que ultrapassa a dermatologia. Ofegação muito intensa, fraqueza, desorientação, vômitos, salivação excessiva ou dificuldade para respirar durante a exposição ao calor podem indicar uma situação de emergência e exigem atendimento veterinário.
A ideia de que basta “tirar o pelo” para deixar o cachorro mais confortável, portanto, simplifica uma questão bem mais ampla. Nos períodos de temperaturas elevadas, pele e pelagem precisam ser observadas em conjunto. Muitas vezes, antes de recorrer a uma tosa radical, escovar, hidratar, proteger do sol e respeitar os limites do animal são atitudes muito mais eficientes para atravessar os dias de calor.