Eleições 2026

Violência sexual contra crianças é ignorada pela maioria dos planos de governo no AM

Apenas cinco planos de governo das 16 candidaturas mais bem posicionadas ao Poder Executivo em oito estados da Amazônia Legal têm propostas para combater a violência sexual contra crianças e adolescentes.

Omar Gusmão
02/10/2026 às 08:28.
Atualizado em 02/10/2026 às 08:28

Na Amazônia Legal, a taxa de violência sexual é 23,3% maior do que no restante do país, entre crianças e adolescentes de 0 a 19 anos; em Rondônia, o crescimento foi de 45,8% em um único ano. (Foto: Divulgação)

A violência sexual contra crianças e adolescentes é lamentavelmente ignorada nos planos de governo da maioria dos candidatos ao Governo do Amazonas. A negligência com o tema, entretanto, não é exclusividade dos candidatos do Estado.

Levantamento realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revelou que o problema é regional: apenas cinco planos de governo das 16 candidaturas mais bem posicionadas ao Poder Executivo em oito estados da Amazônia Legal têm propostas para combater a violência sexual contra crianças e adolescentes.

O agravante é que, na Amazônia Legal, a taxa de violência sexual é 23,3% maior do que no restante do país, entre crianças e adolescentes de 0 a 19 anos. Em Rondônia, o crescimento foi de 45,8% em um único ano. No Pará, foram 4.751 registros em 2023, alta de 23,2%.

Segundo o “Panorama da violência letal e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil”, produzido pelo Unicef e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Rondônia e Roraima tiveram em 2023 as maiores taxas de estupro contra pessoas de 0 a 19 anos do país entre os estados amazônicos – 234,2 e 228,7 casos por 100 mil habitantes dessa faixa etária, contra 116,4 na média nacional.

A análise feita pelo Unicef considerou as propostas dos dois primeiros candidatos com maior intenção de voto no Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. No Amazonas, foram analisados os planos de governo de Omar Aziz (PSD) e Roberto Cidade (União).

MENÇÕES

O senador Omar Aziz é campeão absoluto de menções a crianças e adolescentes entre os 16 planos de governo analisados pelo Unicef na Amazônia Legal, com um total de 209 menções, das quais 65 dizem respeito a segurança pública, 52 a educação, 45 a proteção social, 25 a saúde e 3 a esporte/cultura.

Em seu “Plano Estratégico de Desenvolvimento”, Omar inclui um conjunto de ações que compõem a política de proteção de crianças e adolescentes, principalmente nos eixos de assistência social, segurança, saúde e educação. Entre elas estão o fortalecimento da rede de proteção, a integração entre os órgãos públicos e a estruturação dos Conselhos Tutelares, inclusive com melhores condições de trabalho e capacidade de atendimento no interior.

Já Roberto Cidade surge em 14º lugar entre os planos analisados pelo Unicef com nove menções a crianças e adolescentes: seis relacionadas a educação, duas relacionadas a saúde e uma relacionada a esporte/cultura. A CRÍTICA, contudo, não se limitou aos dois mais bem colocados nas pesquisas à época que o Unicef resolveu fazer o levantamento, e escrutinou os planos de todos os candidatos ao governo do Amazonas, em busca de propostas específicas para a infância e adolescência.

O que pode ser constatado na maioria dos planos de governo dos candidatos ao comando executivo do Amazonas, é que predominantemente as propostas tratam especificamente de crianças e adolescentes somente quando abordam o tema educação.

GENÉRICOS

Quando se trata de combate às violências, crianças e adolescentes costumam ser incluídos em um grupo que abrange mulheres e idosos, entre outros grupos populacionais considerados vulneráveis ou mais fracos. Ou seja, não se trata de propostas específicas para crianças e adolescentes, mas para os considerados mais indefesos.

O candidato Cabo Daciolo (Mobiliza) concentra suas propostas para crianças e adolescentes na educação, em programas como “Amazonas Educação Integral” e “Meta Ideb Amazonas”. Daciolo propõe também o “CNH Jovem Amazonas”, para custear a primeira Carteira Nacional de Habilitação de jovens residentes no Amazonas que concluírem o Ensino Médio.

Da mesma forma, David Almeida (Avante) restringe suas propostas à infância e adolescência ao eixo 4 de seu plano de governo: “Educação Transformadora – Conectando Futuro, Transformando Realidades”, no qual elenca programas e ações que pretende desenvolver para fortalecer a educação no estado.

Gilberto Vasconcelos (PSTU), além do capítulo que trata de educação, tema que naturalmente envolve crianças e adolescentes, também trata especificamente dessa parcela da população na seção “Juventude e Perspectiva de Futuro”, na qual destaca que, em um estado com população majoritariamente jovem – concentrada nas faixas entre 15 e 29 anos – o desemprego, a informalidade e a precarização se combinam com desigualdades no acesso à educação, sobretudo no ensino médio. Violência sexual e crianças, entretanto, não são citadas.

O candidato Isael Munduruku (Rede) também restringe as propostas específicas a crianças e jovens no eixo que trata sobre educação, com o adendo de que pormenoriza propostas para a educação indígena e para o ensino técnico e universitário.

Única mulher a concorrer ao cargo, Maria do Carmo Seffair (PL) repete o padrão ao se limitar a incluir no plano propostas para crianças e adolescentes que concernem educação: ampliação de vagas em creches e pré-escolas, oferecer cursos técnicos e profissionalizantes gratuitos, conectados às oportunidades reais de emprego no Amazonas e Priorizar a alfabetização na idade certa, reconhecer escolas e profissionais que entreguem resultados, ampliar o atendimento a estudantes com deficiência e autismo e fortalecer a educação escolar indígena são algumas das propostas.

 É um tema prioritário, diz representante do Unicef

 Rayane França, chefe do escritório do Unicef em Manaus, pontua que é importante que o tema da violência sexual contra crianças e adolescentes seja visto como prioritário. “É um tema prioritário pois está conectado com saúde e educação. Precisa ter metas, ter orçamento público e estratégias”, afirma a especialista.

Sobre o fato da Amazônia Legal apresentar índices 23,3% maiores do que os detectados em outras regiões do País, Rayanne esclarece que é preciso olhar para esses dados com atenção. “Isso também significa que os sistemas de notificação estão funcionando. Ao mesmo tempo, é preciso uma atenção dedicada a essa ação”, opina.

Rayanne também detalha as frentes de combate e prevenção à violência sexual contra crianças e adolescentes que o Unicef trabalha no Amazonas. “A maior delas é o Selo Unicef, que monitora os resultados sistêmicos. Um desses resultados é a proteção contra as violências. Diante desses resultados sistêmicos, são trazidas estratégias de abordagens diretas com os municípios para garantir o sistema de garantias de direito”, explica.

O Selo Unicef é uma iniciativa que reconhece os municípios do Semiárido e da Amazônia Legal brasileira que mais avançam na melhoria das condições de vida de crianças e adolescentes. Os resultados sistêmicos são mudanças estruturais e permanentes nas políticas públicas municipais. Eles exigem que as prefeituras articulem diferentes áreas (como saúde, educação, assistência social e proteção) para que os direitos da infância continuem garantidos mesmo após o fim de cada edição do selo.

Rayanne cita também a experiência do Festival de Parintins, quando o Unicef, em parceria com governo do estado e prefeitura municipal da Ilha Tupinambarana foi lançado o “Guia Rápido para Municípios: Orientações Práticas para a Proteção de Crianças e Adolescentes durante Grandes Eventos e Festas Populares”. Segundo ela, Parintins é um grande exemplo do trabalho de combate à violência sexual contra crianças e adolescentes.

A especialista também chama a atenção para a necessidade de orientar as prefeituras municipais para a atenção com as comunidades indígenas em relação ao tema.

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