Montar um escritório próprio exige recursos que grande parte dos recém-formados não possui.
(Foto: Imagem gerada por IA)
A autora é advogada, ex-Ouvidora da Justiça Eleitoral do Amazonas, ex-Diretora da Escola Judiciária Eleitoral, ex-Juíza Eleitoral do TRE/Am pela classe dos juristas
O acesso formal à advocacia no Brasil é democrático, mas o exercício efetivo da profissão não ocorre em condições iguais. Para muitos jovens advogados e advogadas, especialmente aqueles sem capital financeiro ou redes de relacionamento consolidadas, o início da carreira revela obstáculos que vão além da formação técnica.
Montar um escritório próprio exige recursos que grande parte dos recém-formados não possui. Diante disso, a alternativa mais comum é a inserção em grandes escritórios, em posições iniciais marcadas por baixa remuneração e alta exigência produtiva. São profissionais qualificados, responsáveis por atividades jurídicas relevantes, mas com pouca autonomia e limitada participação nos resultados do trabalho que ajudam a construir.
Esse modelo, embora juridicamente regular, produz uma distorção estrutural. O discurso meritocrático perde força quando o ponto de partida pesa mais do que a capacidade técnica. O mérito existe, mas não opera em igualdade de condições quando fatores econômicos e sociais determinam as possibilidades reais de ascensão profissional.
As consequências não se limitam ao plano individual. A precarização inicial afasta talentos, reduz a diversidade na advocacia e prolonga relações profissionais marcadas por dependência econômica. Em um cenário assim, a autonomia técnica, elemento essencial da advocacia, tende a ser enfraquecida.
Refletir sobre essas desigualdades não é atacar instituições nem desqualificar trajetórias consolidadas. É reconhecer que valorizar a advocacia exige discutir condições reais de acesso, permanência e desenvolvimento profissional, especialmente para quem não dispõe de capital inicial nem de relações estratégicas.