Jeiza Russo
A mídia tradicional parece sofrer disfunção cognitiva permanente. Parcela dela se preocupou nesses dias em produzir matérias com foco na comparação entre o tamanho da manifestação de domingo (14 de dezembro) e o da de 19 de setembro. Onde deu mais gente? A pergunta mobilizou especialistas e uma tentativa fracassada de deixar como recado a noção da falta de interesse dos brasileiros em relação à pauta da anistia aos golpistas de 8 de janeiro e a dosimetria aos condenados.
Os protestos do domingo (14) ocorreram em 48 cidades das quais 14 capitais (dados do Brasil de Fato). E esse é um indicador relevante, mesmo que em um determinado lugar, ainda que fosse uma pessoa ou 22 pessoas que se juntaram para dizer, publicamente, não aos projetos de leis de anistia aos golpistas e da dosimetria; não à conduta de deputados e senadores que é de desrespeito e de agressão à cidadania dos brasileiros.
Os números são importantes e devem ser buscados no jornalismo e nas demais áreas, conferidos, confiáveis, confrontados. Ajudam no combate à desinformação. Não podem ser e não deveriam ser utilizados como obsessão para sustentar outros interesses contrários aos da sociedade e da porção vulnerabilizada. “Ninguém come PIB, come alimentos”, nos ensinou a professora e economista Conceição Tavares ao questionar e criticar outra obsessão na história dos ministros de economia e de governos por indicadores macroeconômicos e menosprezo ao que realmente pesava na realidade cotidiana da maioria dos brasileiros.
Recordo um ensinamento do jornalista Claudio Abramo que deveria permanecer em nossa memória e na memória ativa dos jornalistas mais comprometidos com a beleza arriscada dessa profissão sempre que produzir matéria jornalística:
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(ABRAMO, 1989, p.47).
Os manifestantes do dia 14 de dezembro somaram 80 mil, 90 mil, 100 mil... em todo o país? Para além do esforço estratégico da mídia de comparar e na “comparação informada” disseminar um contexto onde relações de poder são friccionadas. Há um Brasil no Brasil que faz soar os slogans das lutas nas ruas físicas e na virtualidade, reaprende a rufar os tambores, balançar as velhas e necessárias bandeiras porque as ameaças se tornaram reais, se multiplicam e recebem de uma maioria dos legisladores apoio para serem concretizadas como punhal no coração do povo.