Já não há espaço no uniforme dos jogadores, que se tornaram à força outodoors ambulantes
(Divulgação/FIFA)
Nos dias de jogos da Copa Mundial, a palavra peça - enquanto parte, pedaço, fragmento – era acionada com frequência e naturalidade por jornalistas e especialistas da área. Por vezes, não se dizia o nome do jogador e sim o número com o acréscimo “é uma peça importante” ou “vamos ver se o técnico irá trocar algumas peças” e algumas outras frases no lidar com os jogadores no campo ou no banco de reserva.
A designação peça em referência a jogadores humanos merece ser refletida. Em princípio, jornalistas e especialistas esportivos demonstram “afeição” pelo termo e certo gosto pelo arranjo feito com ares de competência e em sintonia com a contemporaneidade.
O Brasil colônia deixou à sociedade nacional marcas que se revelam difíceis de serem enfrentadas e superadas. A da escravização de pessoas é uma delas. Foram 400 anos de escravidão como base de um sistema político-econômico. Os jornais do século XIX eram a plataforma de sucesso para os anúncios de compra e venda de pessoas negras escravizadas.
Neles, a palavra peça estabelecia a noção vigente à época no comércio de humanos considerados não humanos e sim um pedaço de algo útil ou não aos negócios dos senhores das senzalas. Os atributos ou as imperfeições das peças anunciadas indicavam margem de valor a ser pago e do lucro se o negócio fosse fechado. Ou a recompensa no caso dos escravizados que fugiam.
A vergonhosa Copa deste ano também deixa algumas marcas. O assujeitamento da Fifa é um dos casos. A intervenção imperialista do governo Trump é outra. E nas coberturas das grandes redes a quase ausência de uma postura crítica-reflexiva diante da sucessão de absurdos registrados a partir da mão do poder estadunidense.
No segmento econômico, a Copa Mundial de Futebol implantou uma série de negócios que se revelam desde já exitosos para uns poucos. A velocidade da expansão do setor de apostas esportivas em nível global, a digitalização de serviços, a popularização dos aplicativos móveis são um dos esteios de investidores dessa indústria esportiva.
O interesse das plataformas não está restrito à exposição de marca durante as transmissões. O futebol oferece audiência global, grande volume de informações produzidas em tempo real e elevado nível de engajamento dos torcedores, fatores que ampliam oportunidades de monetização por meio de apostas ao vivo e produtos digitais.
Agora vale a comercialização oficial dos dados produzidos durante as partidas. “Cada passe, finalização, desarme, escanteio, falta, substituição ou movimentação dos atletas gera informações utilizadas para alimentar sistemas estatísticos, plataformas de transmissão, empresas de análise de desempenho e operadores licenciados de apostas esportivas”, cita matéria da Gazeta Mercantil, de 25 de junho de 2026.
Os negócios da Copa de 2026 estão estimados em R$ 16 bilhões (US$ 3,1 bilhões), alta seis vezes maior do que o valor alcançado no último mundial. Aparentemente, já não há espaço na “farda” dos jogadores que se tornaram à força outodoors ambulantes. Nessa direção, são vistos como peças inclusive pelo jornalismo – parte do negócio – e, em alguns moldes, sustenta pela linguagem a engrenagem da escravização.