OPINIÃO

Mapa da violência mostra as marcas e pede tomada de decisão

Ivânia Vieira
04/09/2026 às 10:44.
Atualizado em 04/09/2026 às 10:44

Ato nacional pelo fim da violência contra as mulheres, com o tema Basta de feminicídio, na Avenida Paulista em 2015 (Rovena Rosa/Agência Brasil)

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 entre os tópicos assinalados com o “chama atenção”, dedica vários trechos sobre a violência contra mulheres, mulheres negras e crianças no Amazonas e na Região Amazônica.

O estudo, hoje percebido nacionalmente como um dos mecanismos marcado pela responsabilidade cientifica, pode se constituir em um dos suportes mais estratégicos para a elaboração de políticas públicas eficientes no enfrentamento as violências mostradas nesse mapa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

A edição do documento deste ano, aponta que quando comparada a taxa de homicídios de mulheres negras com a de mulheres não negras, constata-se tendência de queda gradual e consistente ao longo do decênio (de 2014 a 2024). Mas, adverte que a redução ocorra em ambos os grupos (negras e não negras), a desigualdade se mantém: em 2024, a taxa de vitimização por homicídio de mulheres negras (4,0 homicídios por 100 mil mulheres) foi 66,7% superior à taxa verificada entre mulheres não negras (2,4%).

O anuário registra que chama atenção os casos de estados como Amazonas e Roraima, que apresentam taxas acima de 6,0%. “Ainda somos uma nação violenta e profundamente marcada pelas diferenças raciais, de gênero, geracionais e regionais que caracterizam quem são e onde vivem as vítimas da violência letal (p. 24).

O perfil étnico-racial das vítimas de estupro revela a manutenção de uma tendência histórica: a população negra concentrou a maioria expressiva dos registros, abrangendo 57,1% dos casos, seguido de pessoas brancas (41,4%), enquanto indígenas e amarelos correspondem a 1,1% e 0,3% das ocorrências notificadas, respectivamente.

O estudo afirma que a maior vulnerabilidade da população negra à violência sexual, sobretudo de mulheres negras, está profundamente enraizada em processos históricos de subalternização e desumanização que remontam ao período colonial, quando seus corpos eram tratados como “não humanos” e submetidos a violações sistemáticas, um cenário alimentado até hoje por representações sociais que hipersexualizam a mulher negra.

Desta forma, a análise do perfil étnico-racial das vítimas de estupro, em conjunto com os demais indicadores evidencia como a interseccionalidade entre distintos mascadores sociais, como raça, gênero e idade interagem para ampliar a vulnerabilidade nesse tipo de violação, ao criar uma distribuição desigual de precariedade e silenciamento (p.196) e sugere a hipótese de que a real magnitude da violência sexual contra a população negra seja ainda maior do que a registrada (197).

Entre os oito estados com as maiores taxas de estupro, sete integram a Amazônia Legal. A única exceção é Mato Grosso do Sul, que apresenta a quinta maior taxa do país (p.190). Entre as questões mantêm parte significativa dessas violências fora das estatísticas oficiais, o anuário cita: medo de denunciar, a vergonha, a dependência econômica, a percepção de que a denúncia não produzirá consequências e a própria naturalização de comportamentos abusivos.

* Artigo públicado no jornal impresso A Crítica 29 de julho de 2026

Assuntos
Compartilhar
Sobre o Portal A Crítica
No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.
Portal A Crítica - Empresa de Jornais Calderaro LTDA.© Copyright 2026Todos direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por