Artigo

O abandono que apaga a arquitetura amazônica de Severiano Porto

Obras do arquiteto são descaracterizadas, demolidas ou destruídas pelo abandono, revelando a perda de um patrimônio cultural de Manaus e, ao mesmo tempo, o drama social de jovens em situação de vulnerabilidade

Robério Braga
05/09/2026 às 19:02.
Atualizado em 05/09/2026 às 19:02

Demolido, o espaço deu lugar a um posto de combustíveis, em mais um exemplo da perda do patrimônio arquitetônico da cidade. (Divulgação)

Muitas obras que resultam de projetos do premiado arquiteto brasílico-amazônico, o festejado Severiano Mário Porto, têm tido um triste fim, seja porque foram deformadas pelos proprietários e usuários, descaracterizadas pelas obras que deveriam ser de manutenção e conservação, seja pelo abandono a que têm sido relegadas e até pela demolição.

Essas circunstâncias impõem perdas inimagináveis ao patrimônio cultural do povo manauense e ao cenário urbano de Manaus e representam um enorme desrespeito à obra memorável que ele realizou, dedicando a maior parte de sua existência e a sua exemplar inteligência a propor e a implantar uma arquitetura telúrica, amazônica, consentânea com as características e as condições climáticas da região.

Para constatar essa doída verdade, basta passar em revista à alguns edifícios mais conhecidos ou ainda presentes na memória da cidade. Foi assim com o Fórum “Henoch Reis”, que foi concluído após muitos anos em obras e, no correr do tempo, teve o projeto e o autor desrespeitados e se apresenta completamente descaracterizado; com o restaurante “Chapéu de Palha”, prêmio nacional e que chegou a ser cartão postal da cidade, o qual, demolido, cedeu lugar a um posto de combustíveis; com os reservatórios de água em forma de vitória-régia encomendados pelo governo estadual e transferidos para a inciativa privada que deles não cuida adequadamente; com o prédio do Tribunal Regional Eleitoral que, para ser concluído, após um bom tempo com obras paralisadas, descaracterizou o projeto original e o deformou completamente; com o complexo do Campus da Universidade Federal do Amazonas, hoje recheado de adulterações e remendos que vem sendo feitos há vários anos; com o prédio que serviu à antiga UTAM e seu anfiteatro ao ar livre, sonho do Prefeito Paulo Nery, inteiramente deformado; com o belíssimo prédio da loja comercial “Credilar Teatro”, na avenida de Eduardo Ribeiro, deformado e relegado a depósito de uma empresa prestadora de serviço público, e assim sucessivamente com vários outros, inclusive sua casa de residência.

Como se não bastasse, na última quinta-feira, o prédio que foi sede de uma das lojas de atendimento do Banco da Amazônia, na avenida Sete de Setembro, cujo projeto foi concebido em 1974 e inaugurado em 1979, o qual estava abandonado, mas ainda com certas características originais e possível de ser recuperado adequadamente, foi destruído pelo fogo, após experimentar a solidão de muitas intempéries e ter sido objeto de inúmeras promessas de restauração e ocupação condigna.

O mais triste é que, segundo notícias colhidas em várias fontes de imprensa, o incêndio teria sido provocado por ocupantes que são fruto da decomposição social a que o uso de drogas conduz parte da nossa juventude, sem que tivessem a menor percepção do que a edificação representava de valor memorial para todos os amazonenses. 

Duas dores estão entremeadas nesse episódio: a perda de mais uma obra de Severiano Porto, singela, elegante, aberta por toras gigantescas de madeira regional, originalmente iluminada e ventilada pela expressão comum da natureza, como era do feitio do arquiteto, em composição que reunia concreto armado, vidro e madeira regional; e a dura e trágica constatação escandalosa de que estamos perdendo jovens, filhos da nossa terra, irmãos do nosso coração, para as alucinações em que são consumidos diuturnamente e em perambulação pelo centro antigo da cidade. Jovens que são patrimônio insubstituível para nosso futuro.

Perde-se o original de uma das 29 obras de Severiano Porto, que foram consideradas expressão de uma arquitetura amazônica e de alto valor para o nosso patrimônio cultural. Escancara-se a dor da nossa juventude, talvez com um grito de socorro que precisa ser ouvido.

  

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