Economia

Equipe de Flávio Bolsonaro cita Milei e modelo econômico pode impactar Zona Franca de Manaus

Desde que assumiu o governo argentino, Javier Milei realizou uma série de cortes brutos nos gastos públicos, diminuição de subsídios e desregulamentação da economia.

Lucas dos Santos
22/09/2026 às 08:28.
Atualizado em 22/09/2026 às 08:28

(Foto: AFP)

A assessora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, afirmou que o grupo se inspira na política do presidente argentino Javier Milei, que adotou uma postura ultraliberal e teve como resultado o fechamento de indústrias e deterioração social. Ex-secretária do Ministério da Economia comandado por Paulo Guedes, que fez reiterados ataques à Zona Franca de Manaus (ZFM), a assessora revelou a inspiração em Milei durante encontro do grupo econômico Esfera.

“Flávio fez uma orientação para a equipe, para a gente trabalhar na revogação e voltar atrás em todos os impostos criados ou elevados pelo Haddad. Já temos mais de mil normas mapeadas para revogar, usando um pouco de inspiração no que foi feito no governo Milei na Argentina. Milei é um ótimo exemplo em termos de voltar a ter capacidade de investimento e redução de burocracia e impostos”, disse Daniella Marques, informou a Folha de S. Paulo.

Desde que assumiu o governo argentino, Javier Milei realizou uma série de cortes brutos nos gastos públicos, diminuição de subsídios e desregulamentação da economia. Embora tenha atingido o objetivo de desacelerar a inflação mensal e reduzir os gastos do Estado, conseguido até mesmo um superávit de 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB), o impacto interno se traduziu na indústria: mais de 30 mil empresas fecharam desde que Milei assumiu a presidência, segundo o instituto independente Fundar.

Economistas atribuem o problema à queda no consumo interno, perda no poder de compra com a diminuição dos subsídios por Milei, além de maior concorrência empresarial com a abertura comercial acelerada feita pelo presidente argentino, que defendeu a política apesar das questões contrárias.

CONSEQUÊNCIAS

Modelos existentes no Brasil, como a própria Zona Franca de Manaus, seriam severamente impactados pela adoção de uma política semelhante a de Javier Milei. O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antonio Silva, afirmou que, embora a busca pela desburocratização seja legítima, o sistema produtivo estruturado sob o regime de incentivos da ZFM, “demanda forte previsibilidade regulatória para assegurar a continuidade dos investimentos de longo prazo”.

“Experiências internacionais recentes demonstram que processos de desregulamentação acelerada, quando desacompanhados de transições calibradas, podem gerar impactos adversos sobre o setor produtivo. No Brasil, mudanças dessa magnitude sem a devida atenção às especificidades regionais comportam o risco de desorganiza polos industriais consolidados e comprometer a segurança de planejamento das empresas”, disse.

O dirigente industrial destacou que o setor produtivo bota as expectativas em reformas consistentes que “privilegiem o gradualismo, a segurança jurídica e a harmonia federativa”. Para ele, o avanço da competitividade brasileira deve ocorrer em um ambiente de negócios estável, conciliando “a modernização institucional com a preservação da atividade fabril, da renda e do emprego”.

A reportagem também procurou instituições como a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Amazonas (Fecomércio-AM) e o Conselho Regional de Economia (Corecon) para que se manifestassem sobre a proposta da equipe de Flávio Bolsonaro. Em nota, a Fecomércio-AM afirmou que não analisa propostas eleitorais “uma vez que não sabemos ainda quem será o próximo presidente”.

Já o Corecon disse que, por se tratar de uma questão relacionada à proposta de um candidato à presidência, não se manifestaria sobre o tema. “Durante o período eleitoral, precisamos resguardar o princípio da isonomia e evitar posicionamentos que possam ser interpretados como favoráveis ou contrários a qualquer candidatura. Além disso, a demanda trata de uma pauta econômica de abrangência nacional. Por isso, sugerimos encaminhá-la ao Conselho Federal de Economia (Cofecon)”, completou.

ZFM é política constitucional

O Centro da Indústria do Estado do Amazonas acompanha com atenção o debate nacional sobre revisão de normas, eficiência do Estado e melhoria do ambiente de negócios. São temas legítimos e relevantes para a indústria brasileira, sobretudo diante da necessidade de elevar a produtividade, reduzir custos e oferecer maior segurança jurídica aos investimentos.

Experiências adotadas em outros países podem contribuir para essa discussão, desde que examinadas com equilíbrio e à luz das particularidades econômicas, sociais, institucionais e federativas do Brasil. Modelos concebidos em realidades distintas não devem ser reproduzidos de maneira automática, especialmente quando seus efeitos alcançam o emprego, a produção industrial, a renda das famílias e a capacidade de desenvolvimento das diferentes regiões.

A revisão de normas pode produzir resultados positivos quando elimina burocracias desnecessárias, atualiza procedimentos e torna o Estado mais eficiente. Uma mudança de grande alcance, contudo, precisa ser conduzida com critérios técnicos, transparência, diálogo e avaliação prévia de impactos. A quantidade de normas revogadas, isoladamente, não constitui medida suficiente de qualidade regulatória.

Para o Amazonas, essa análise exige atenção adicional. A Zona Franca de Manaus é uma política constitucional de desenvolvimento regional, responsável pela sustentação de uma ampla cadeia produtiva, pela geração de empregos e pela preservação de uma parcela expressiva da cobertura florestal do Estado. Qualquer alteração regulatória ou econômica deve considerar a segurança jurídica desse modelo, as desigualdades entre as regiões brasileiras e os compromissos assumidos pelo país até 2073.

O Cieam entende que o debate eleitoral deve favorecer a apresentação clara de propostas, acompanhadas de estudos e estimativas sobre seus possíveis efeitos. À entidade cabe contribuir tecnicamente, mantendo independência em relação a partidos e candidaturas e defendendo medidas capazes de conciliar competitividade industrial, estabilidade institucional, inclusão social e responsabilidade ambiental.

Esses princípios integram a agenda de governança que orienta a atuação e os critérios de avaliação do Cieam.

Opinião

Denise Kassama - ECONOMISTA

A economista Denise Kassama destacou que é muito difícil fazer analogias entre a Argentina e o Brasil, pontuando que as políticas de um país não poderiam se aplicar ao outro por uma série de fatores. Sobre a política de Javier Milei, a especialista avaliou que dificilmente ele será reeleito e que sua direção na economia foi brusca demais.

“É evidente que, dentro do processo inflacionário da Argentina, que era catastrófico, ele tinha que fazer alguma coisa, mas ele fez tudo de uma vez. Então, a inflação está caindo, mas não exatamente por êxito, mas porque as pessoas ficaram sem recursos para consumir. Ele tirou subsídios, deixou a condução cara, a energia, a água, de modo que os recursos da população só estão dando para sobreviver. Tanto que estão comendo carne de jumento”, disse.

Essa sequência de problemas, segundo Kassama, estão fazendo a Argentina caminhar para uma recessão por conta de consumo. A indústria não pode ser estimulada se não tiver para quem vender. Embora concorde que seja necessário enxugar a máquina pública, isso não pode ser feito de uma vez e sem planejamento.

“Há consequências. Desemprego está em alta na Argentina. No Brasil, está vendo as menores taxas dos últimos anos. Alimentos estão caros na Argentina, no Brasil nem tanto. Então, tem que tomar cuidado. São realidades difíceis, diferentes e não dá para aplicar. Não é uma fórmula de bolo”, completou.

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