O professor de Relações Internacionais Gustavo Menon acredita que o país conseguirá conter o cenário
(Foto: EBC, UCB e arquivo pessoal)
Para o professor de Relações Internacionais Gustavo Menon, o aumento das tensões nos Estados Unidos podem aproximar o país de uma “antessala de guerra civil”, embora ele acredite que as forças políticas do país conseguirão conter o cenário. Para A CRÍTICA, ele analisou o agravamento das tensões internas nos Estados Unidos após as operações do governo Donald Trump contra imigrantes e as tensões com aliados históricos, do tarifaço ao interesse pela Groenlândia.
Menon é professor da área de Relações Internacionais e Direito Internacional da American Global Tech University (AGTU). Possui pós-doutorado em Direitos Humanos (Universidade de Salamanca, Espanha), e doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (Prolam/USP), onde hoje atua como docente. Também é coordenador do curso de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília. Confira a entrevista.
Neste mês, tivemos a morte de um cidadão americano por agentes de imigração dos Estados Unidos, depois de outra morte duas semanas antes. Após críticas, o governo retirou o agente responsável pela ação em Minnesota. Para onde essa política contra imigrantes está caminhando?
Nesse cenário de agudização das tensões no ambiente doméstico nos Estados Unidos, vale registrar que estamos falando de um ano eleitoral e de uma sociedade fortemente dividida. Essas operações explicitam um cenário que beira uma guerra civil diante do colapso da hegemonia estadunidense nas relações internacionais.
Do ponto de vista doméstico, a correlação de forças pode mudar substancialmente a depender das eleições legislativas previstas para novembro. Há mobilizações por parte de movimentos sociais, coletivos, muitos jovens e estudantes nas ruas, favoráveis à plataforma democrata no sentido de rechaçar essas iniciativas arbitrárias e unilaterais engendradas pelo novo governo de Donald Trump.
Quando chamamos atenção para essas medidas autoritárias e repressivas, observamos uma crise estruturante da democracia estadunidense. Universidades estão sendo atacadas e há iniciativas direcionadas a grupos historicamente vulnerabilizados, especialmente os imigrantes, severamente afetados por essa política migratória restritiva.
A última eleição presidencial foi extremamente acirrada, especialmente nos chamados Estados-pêndulo. Em termos de articulação política, há projeções de que os democratas conquistem maioria ao menos na Câmara dos Representantes. Isso significaria a interdição dessas políticas e colocaria em xeque a continuidade do mandato de Donald Trump, já que estamos falando de uma oposição que não legitima tais ações.
Para alguns analistas, já não é absurdo se falar em uma possibilidade real de guerra civil com o aumento das tensões. O risco existe?
Esse cenário de agudização das tensões vem se acirrando principalmente em Minnesota, mas também em Nova York, Califórnia e outras regiões onde prevalecem forças democratas. Os Estados Unidos não conseguem dar respostas a essa crise que fraturou o país.
Muitos especialistas falam em uma antessala de guerra civil. Eu não concordo com análises mais alarmistas, mas é uma sociedade altamente militarizada, com protestos se expandindo por várias cidades. A política migratória vem sendo duramente questionada, há detenções arbitrárias e uso excessivo da força.
Isso coloca ainda mais lenha na fogueira onde há a eminência de um cenário no qual podemos falar de uma antessala de uma guerra civil, mas acredito que as forças políticas daquele país devem conter isso sem dúvida nenhuma.
Os Estados Unidos vêm prejudicando relações com aliados históricos, como Reino Unido, Canadá, França e Dinamarca, seja com tarifaços ou com a ameaça à Groenlândia. Por quê?
Veja que estamos diante, em primeiro lugar, do colapso do direito internacional. As instituições que foram forjadas no período do pós-guerra, isto é, pós-1945, incluindo o sistema ONU e as chamadas instituições de Bretton Woods, como o Banco Mundial e a composição do Fundo Monetário Internacional, foram severamente afetadas e abaladas em razão dessa política externa protecionista, unilateral, arbitrária e profundamente ilegal, atuada principalmente por parte da nova administração de Donald Trump.
Cabe consignar, nesse momento, que essas instituições simplesmente estão virando pó. A título de referência, veja a proposta mencionada no último Fórum Econômico Mundial, realizado na cidade de Davos, na Suíça, onde Trump anunciou aquela iniciativa do Conselho da Paz para a retomada de Gaza, para a reconstrução de Gaza, a partir de uma articulação político-ideológica com os seus aliados.
Veja como esse sistema multilateral vem sendo profundamente abalado e não sabemos aquilo que está por vir no dia seguinte, já que estamos falando de um mundo em conflagração, a começar pela guerra na Eurásia.
Donald Trump dinamita aliados históricos, como é o caso da União Europeia, em matéria de financiamento da OTAN. Os Estados Unidos tentam se reposicionar do ponto de vista geopolítico e geoeconômico nessas disputas internacionais, nesse tabuleiro geopolítico, afirmando a América Latina como uma região de sua histórica influência.
Ao que me parece, a incursão na Venezuela, que acabou culminando com o sequestro, com a captura de Nicolás Maduro, é resultado desse processo de reposicionamento dos Estados Unidos na ordem internacional, onde cada vez mais prevalece a lei do mais forte.
Observe que, em termos dessa disputa por hegemonia, as mensagens dadas por Donald Trump são claras, direcionadas a Pequim e a Moscou, no sentido de tentar conter ou estancar essa aliança sino-russa.
Mas essas instituições internacionais e o próprio multilateralismo já vinham enfraquecendo antes, certo? Num exemplo mais próximo, o próprio governo Bolsonaro priorizava alianças bilaterais.
No fundo, as instituições que foram criadas na segunda metade do século XX não correspondem mais, em termos de representatividade, à correlação de forças dessa primeira metade do século XXI.
O que eu quero dizer é que há um bom tempo essas instituições, a começar pelo próprio Conselho de Segurança das Nações Unidas, não conseguem dar contribuições e elencar ações e medidas efetivas para conter essa escalada dos conflitos que estamos presenciando aqui na alvorada do novo milênio.
De fato, há uma paralisia, um cenário de inação por parte das instituições, incluindo o sistema ONU e a própria dinâmica da Organização Mundial do Comércio. Há toda uma necessidade de reorquestração, de reoxigenação, em termos de se pensar a reforma dos mecanismos da governança global.
O Brasil, nesse sentido, historicamente é partícipe desse pleito, no sentido de defender maior equidade, maior representatividade, principalmente por parte das nações emergentes, as chamadas nações do Sul Global, para que essa participação se cristalize na composição de uma ordem pautada em termos de um mundo multipolarizado.
Os EUA têm reiterado que a América Latina é sua zona de influência. Vimos a operação na Venezuela, ameaças ao presidente da Colômbia e tarifaço de 50% contra o Brasil, antes de Trump recuar e dialogar com Lula. Como entender a visão dos EUA para a região?
Os Estados Unidos tentam retomar sua posição de país influente nessa região do Caribe, na região da América Latina como um todo, compreendendo essa região como uma região de sua histórica influência.
Isso se dá em um contexto do avanço das remessas chinesas nos últimos anos e nas últimas décadas. Do ponto de vista das relações sociocomerciais, os Estados Unidos perderam espaço nesse contexto de virada do milênio, de transição do século XX para o início do século XXI, em meio a esse boom da economia chinesa.
Agora tentam se reposicionar na região a partir de uma atualização, de uma reoxigenação da chamada Doutrina Monroe, uma doutrina ainda do século XIX que vem sendo reinterpretada por parte de Donald Trump, no sentido de fazer valer essa noção de uma América para os Estados Unidos, compreendendo uma segurança hemisférica.
Isso passa pela ação que foi orquestrada na Venezuela, uma ação que viola uma série de princípios que regem o direito internacional, viola a própria Carta das Nações Unidas.
No ano passado, como se sabe, você bem mencionou essa conjuntura do tarifário, onde diferentes países, incluindo o Brasil, que era palco da realização dos BRICS+, foi alvo dessa política de sobretaxação.
Observe que não há qualquer racionalidade e como praticamente nenhum país é poupado. Brasil, mas também as ameaças destinadas ao presidente da Colômbia, Gustavo Petro, as menções ao Canal do Panamá.
Houve também episódios no ano passado em Honduras, onde a eleição foi flagrantemente tensionada a partir dessas ações da política externa da Casa Branca direcionadas para a região da América Central. Sem falar da continuidade de uma série de embargos que afetam não só a realidade venezuelana, mas também a ilha de Cuba.
Os EUA têm sinalizado interesse em anexar a Groenlândia. Inclusive, falaram em uso da força militar, antes de recuar dessa opção. Há uma avaliação de que Trump negocia assim, tensionando e distensionando. O que poderão conseguir com isso?
Quando analisamos a estratégia e a tática por parte de Donald Trump em fazer valer os seus interesses, observe que estamos falando de uma política da chantagem, uma política permeada por uma série de elementos que conjugam força e consentimento. Nesse sentido, o caso da Groenlândia trata-se de um caso emblemático.
Há uma dimensão comercial envolvida nessa ilha do Ártico e, para além de aspectos comerciais, estamos falando de um território estratégico, já que a Groenlândia é palco de uma série de recursos naturais, recursos esses valiosos nessa corrida tecnológica do século XXI. Posso citar terras raras, petróleo, gás, urânio, entre outros elementos.
Em termos de defesa, estamos falando exatamente de uma rota que vem sendo cada vez mais articulada em razão do degelo no Ártico. Do ponto de vista do derretimento das calotas polares, o Ártico vem sendo substancialmente afetado.
Aqui temos um paradoxo. Donald Trump é um negacionista climático e, mesmo sendo um negacionista climático, ele precisa reconhecer que novas áreas de comércio estão sendo criadas nessa região do Ártico. Isso pode fortalecer uma passagem, uma rota comercial onde China e Rússia possam prevalecer e conquistar essa região estratégica no sentido de articular seus interesses comerciais e também seus interesses no campo da defesa e da segurança.