Uma leve caminhada diária já ajuda a reduzir os riscos cardiovasculares, apontam especialistas.
(Foto: Getty image/Reprodução)
Não é preciso correr quilômetros ou passar horas na academia para começar a cuidar do coração. Para quem vive uma rotina sedentária, uma caminhada, alguns minutos de bicicleta ou qualquer atividade que tire o corpo da inércia já pode representar um ganho importante para a saúde.
A lógica é simples: fazer alguma atividade física é melhor do que não fazer nenhuma. E, segundo o cardiologista Luiz Fernando Fagundes de Gouvêa Filho, professor de Medicina da Universidade Anhembi Morumbi, o exercício mais eficiente é aquele que consegue ser incorporado à rotina e mantido por muitos anos.
“O melhor exercício para o coração é aquele que a pessoa consegue incorporar à sua vida e manter por muitos anos”, afirma o especialista.
Para quem está parado, a recomendação é começar devagar.
Dr. Luiz Fernando Fagundes de Gouvêa, professor de Medicina da Universidade Anhembi Morumbi
Uma caminhada leve pode ser suficiente nos primeiros dias, com aumento gradual da duração e da intensidade conforme o corpo se adapta. A ideia é fugir da lógica do “tudo ou nada”: não adianta começar uma rotina extremamente pesada e abandoná-la poucas semanas depois.
“Uma mudança pequena, mas mantida durante anos, costuma ser muito mais importante do que uma mudança radical que só dura poucas semanas”, explica Gouvêa.
Quando a atividade física passa a fazer parte da rotina, os benefícios para o coração começam a aparecer. Uma grande análise de estudos indica que praticar cerca de 150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada está associado a uma redução de aproximadamente 23% no risco de morte cardiovascular e de 17% na incidência de doenças cardiovasculares.
A marca equivale a cerca de 30 minutos de atividade física, cinco vezes por semana. Mas ela não deve ser encarada como um ponto de partida obrigatório para quem está sedentário. Começar com menos e aumentar progressivamente também é uma estratégia válida.
“Qualquer atividade física é melhor do que nenhuma atividade física, e os maiores ganhos costumam ocorrer justamente quando uma pessoa passa do sedentarismo para algum nível de atividade regular”, destaca o cardiologista.
Embora a atividade física seja uma peça importante, cuidar da saúde cardiovascular vai muito além do treino. Pressão arterial, colesterol, glicemia e peso também precisam ser acompanhados, principalmente por pessoas com histórico familiar de doenças cardiovasculares.
O problema é que alguns desses fatores de risco podem passar anos sem apresentar sintomas. Hipertensão, colesterol elevado e diabetes, por exemplo, podem permanecer silenciosos enquanto provocam alterações nos vasos sanguíneos.
Por isso, manter consultas e exames de rotina em dia também faz parte da prevenção. A alimentação, nesse processo, tem papel importante.
Uma dieta baseada principalmente em alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, verduras, legumes, grãos integrais, castanhas e boas fontes de proteína, contribui para um perfil cardiovascular mais saudável. Já o excesso de sal, açúcar, gorduras saturadas e ultraprocessados pode favorecer o desenvolvimento de doenças.
O cuidado com o coração ainda passa por hábitos que muitas vezes ficam em segundo plano. Dormir mal, fumar, consumir álcool em excesso e viver sob estresse constante também podem prejudicar a saúde cardiovascular.
“O fumar aumenta de maneira importante o risco de infarto, de AVC e de outras doenças cardiovasculares. Parar de fumar produz benefícios cardiovasculares progressivos”, alerta Gouvêa.
O sono irregular e o estresse também podem interferir na pressão arterial, no metabolismo, na alimentação e até na capacidade de manter uma rotina de exercícios. Ou seja: não existe um único hábito capaz de “blindar” o coração.
“A saúde cardiovascular é construída no dia a dia. O que realmente faz diferença é a combinação destes fatores”, resume o especialista.
Quando o corpo dá o alerta
Nem todo desconforto durante uma atividade física significa que existe um problema no coração. Mas alguns sintomas merecem atenção e não devem ser ignorados.
Dor ou pressão no peito, principalmente durante esforço, falta de ar desproporcional à atividade, palpitações acompanhadas de tontura ou desmaio, queda inexplicada da capacidade física, inchaço nas pernas e falta de ar ao deitar são sinais que justificam uma avaliação médica.
Em situações mais graves, a rapidez pode fazer toda a diferença. Dor ou pressão intensa no peito acompanhada de falta de ar, suor frio, náusea ou mal-estar pode indicar um infarto. Alterações súbitas na fala, perda de força em um lado do corpo ou assimetria no rosto podem ser sinais de AVC.
“No infarto e no AVC, tempo é músculo e tempo é cérebro”, reforça o cardiologista. O número importa, mas a constância importa mais
A recomendação de 150 minutos semanais pode servir como uma referência, mas ela não precisa virar uma barreira para quem está começando. Se hoje a pessoa não faz nada, caminhar alguns minutos já é um primeiro passo.
A partir daí, é possível aumentar gradualmente o tempo, experimentar outras modalidades e encontrar uma atividade que faça sentido para aquela rotina. Pode ser academia, corrida, natação, dança, bicicleta ou simplesmente uma caminhada.
No fim das contas, cuidar do coração não precisa começar com um treino perfeito. Pode começar com uma escolha bem mais simples: levantar e se movimentar.
(*)Com informações da assessoria