sazonalidade precoce

Nirsevimabe reforça prevenção contra VSR e dose única pode mudar realidade de bebês na região Norte

Nova estratégia do SUS busca proteger bebês mais vulneráveis contra vírus que lota hospitais e UTIs; em Manaus, sazonalidade começa antes e exige resposta antecipada

Vanessa Alcântara*
cidades@acritica.com
21/03/2026 às 07:05.
Atualizado em 20/03/2026 às 21:20

Especialistas e representantes de entidades da saúde infantil participaram de painel promovido pela Sanofi, em São Paulo, para discutir prevenção ao VSR e os desafios da nova estratégia no país. (Foto: Júnior Rosa)

São Paulo (SP) – A incorporação do anticorpo nirsevimabe ao Sistema Único de Saúde (SUS) abre uma nova frente de prevenção contra o vírus sincicial respiratório (VSR), principal causa de infecções respiratórias graves em bebês e crianças pequenas. No Norte do país, onde a circulação do vírus costuma começar mais cedo e o acesso aos serviços de saúde ainda enfrenta entraves geográficos e logísticos, especialistas defendem que a medida pode representar um avanço importante, desde que venha acompanhada de organização da rede pública, informação às famílias e resposta ajustada à realidade local.

As discussões ocorreram durante um painel promovido pela farmacêutica Sanofi, realizado na terça-feira (17/03), em São Paulo (SP), no restaurante Cantaloup, com a participação de especialistas e representantes de entidades que atuam na área da saúde infantil.

A principal novidade é que o nirsevimabe passa a ser ofertado no SUS para bebês prematuros nascidos a partir de agosto de 2025, com menos de 37 semanas de gestação e até seis meses de idade, além de crianças de até 24 meses com comorbidades previstas pelo Ministério da Saúde. Diferentemente da estratégia anterior, que exigia múltiplas aplicações, o novo imunizante é administrado em dose única por temporada e oferece proteção por cerca de seis meses, justamente o período de maior vulnerabilidade para os bebês. A incorporação do anticorpo também ampliou a cobertura antes restrita ao palivizumabe, que atendia um grupo menor de prematuros.

Nirsevimabe passou a integrar a estratégia de prevenção contra o VSR no SUS, com dose única e proteção de cerca de seis meses para bebês elegíveis.

O VSR é altamente contagioso e, embora muitas vezes se apresente como um quadro parecido com resfriado, com coriza, tosse e congestão nasal, pode evoluir para bronquiolite e pneumonia, especialmente nos primeiros meses de vida. Dados apresentados no encontro apontam que, entre fevereiro e junho de 2025, o Brasil registrou aumento de 36% nas hospitalizações por VSR em bebês de até um ano, em comparação com o mesmo período de 2024, e de 71% em relação a 2023. Em maio do ano passado, 31% dos bebês hospitalizados precisaram de internação em UTI.

Vacinação materna e dose única 

No Brasil, a estratégia desenhada para enfrentar o VSR combina diferentes frentes de proteção. Uma delas é a vacinação materna durante a gestação, com o objetivo de transferir anticorpos ao bebê ainda no útero. A outra é a aplicação do imunizante no recém-nascido prematuro, nos casos previstos pelo protocolo do SUS.

No Amazonas, a implantação do nirsevimabe começou com a distribuição de 3,4 mil doses e, neste primeiro momento, a oferta foi priorizada nas maternidades de referência para prematuros. A previsão é que a estratégia avance gradualmente para hospitais com leitos obstétricos em toda a rede estadual, conforme a chegada de novas doses e a organização dos serviços. O Ministério da Saúde também prevê uma estratégia de resgate para crianças nascidas após a sazonalidade de 2025, para garantir proteção na primeira exposição ao vírus.

Ao responder sobre a realidade do interior do Amazonas, onde muitas mães precisam percorrer longas distâncias — muitas vezes de barco — para conseguir atendimento, a diretora da ONG Prematuridade.com, Denise Suguitani, afirmou que a dose única representa, sim, uma mudança importante para essas famílias.

“Com certeza, é um divisor de águas. O fato de a gente ter apenas uma dose, com proteção por um longo período, muda bastante o cenário. Antes eram cinco doses. Então seriam cinco vezes em que essa logística teria que ser pensada. Quando a gente olha para regiões onde muitas famílias dependem de embarcações ou precisam se deslocar até a capital, isso pesa muito. Uma dose única não elimina o desafio logístico, mas reduz bastante esse peso”, afirmou.

(Foto: Júnior Rosa)

Para Denise, a nova estratégia pode ter efeito concreto na vida de famílias do Norte. “Existe uma corrida contra o tempo para informar essas famílias e garantir que esses bebês recebam a proteção enquanto ainda têm direito. É preciso busca ativa, orientação e organização da rede de saúde para que essas crianças não fiquem desassistidas. Por isso, é muito importante que exista comunicação entre secretarias estaduais e municipais, regionais de saúde, unidades básicas e maternidades. Os postos precisam ligar, fazer visita, orientar essas famílias. Um bebê protegido começa com uma família bem informada”, pontuou.

Realidade do Norte exige resposta mais cedo

A preocupação ganha contornos ainda mais urgentes no Norte. Além das dificuldades de deslocamento enfrentadas por muitas famílias, a sazonalidade das doenças respiratórias na região não segue o mesmo calendário observado em outras partes do país.

A pneumologista Ângela Honda, diretora executiva e líder de programas educacionais da Fundação ProAR, chama atenção para a influência do ambiente e para o fato de que o vírus circula mais cedo na região.

“No Norte, a gente sabe que a influência do ambiente pesa muito, seja pela poluição, pela fumaça ou até pelo uso do fogão a lenha. Essas partículas realmente impactam e podem piorar essas condições respiratórias”, afirmou

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(Foto: Júnior Rosa)

Ela lembra que a prevenção nessa fase da vida pode ter reflexos duradouros. “Nosso pulmão tem uma janela de oportunidade. É do nascimento até os 18 anos que ele está em desenvolvimento. Tudo de bom e de ruim que acontece nesse período a pessoa carrega para a vida inteira. Hoje, por exemplo, a gente vê pacientes com asma de difícil controle porque tiveram bronquiolite na infância. Então, poder prevenir bronquiolite nessa faixa etária é algo muito importante”, disse.

Sobre a sazonalidade, a especialista reforça a necessidade de antecipação. “As regiões têm diferenças importantes, inclusive na sazonalidade. No Norte, isso começa bem antes. Enquanto em outras regiões a gente espera a circulação do vírus um pouco mais tarde, lá ela já começa no início do ano. Então, a prevenção precisa acompanhar esse tempo da doença, porque o vírus já está circulando”, ressaltou.

Prematuros estão entre os mais vulneráveis

O infectologista pediátrico Renato Kfouri reforça que os prematuros exigem atenção especial porque nascem com desenvolvimento pulmonar e resposta imunológica ainda imaturos, o que aumenta o risco de complicações por VSR.

“O prematuro é um ser diferente por várias questões. Ele nasce mais imaturo no desenvolvimento pulmonar e também na resposta imune. Isso acaba sendo um prato cheio para desenvolver complicações do vírus sincicial respiratório, que tem um comportamento diferente nessas crianças”, afirmou.

(Foto: Júnior Rosa)

Segundo ele, o risco de hospitalização entre prematuros pode ser muito superior ao de bebês nascidos a termo. “Dependendo do peso e da idade gestacional, um prematuro pode ter risco de hospitalização por VSR de 10 a 16 vezes maior do que um bebê que nasceu de nove meses. A grande maioria dos casos de bronquiolite acontece entre bebês a termo, até porque eles são a maioria da população. Mas, quando a gente estabelece a relação de risco por 100 mil bebês prematuros, esse risco cresce de maneira muito significativa. É um grupo que precisa de atenção redobrada”, destacou.

Sobrecarga em hospitais 

Embora o foco da nova estratégia esteja nos grupos mais vulneráveis, os dados mostram que o problema é mais amplo. Mais de 70% dos bebês hospitalizados por VSR nasceram saudáveis e a termo, o que indica que o vírus não atinge apenas crianças com condições prévias, ainda que prematuros e bebês com comorbidades sigam entre os mais suscetíveis às formas graves.

A infectologista Rosana Richtmann, do Instituto Emílio Ribas, ressalta que o impacto do VSR não se restringe ao quadro clínico individual e se traduz em sobrecarga para toda a rede pública.

“Os números mostram pra nós um impacto muito relevante em saúde pública. A gente está falando de um vírus com uma taxa de hospitalização bastante elevada e, das crianças que internam, pelo menos uma a cada três precisa de terapia intensiva. Em média, no Brasil, uma internação por bronquiolite pode chegar a cerca de R$ 29 mil quando envolve UTI. Então, é um impacto direto nos recursos públicos, na vida das famílias e no sistema de saúde como um todo”, afirmou.

(Foto: Júnior Rosa)

A médica diz que os períodos de maior circulação do vírus afetam até outros atendimentos hospitalares. “Quando chegam os meses de maior incidência, como abril e maio no Sudeste — e no caso de Manaus, até um pouco antes —, os prontos-socorros ficam completamente lotados com doenças respiratórias. Isso acaba impactando todo o sistema. Muitas vezes, não se consegue vaga nem para outros atendimentos, como cirurgias, porque a rede está sobrecarregada”, explicou.

Redução nas internações

Para Ângela Honda, o efeito mais imediato da nova estratégia deve aparecer justamente na redução dos casos graves e das hospitalizações.

“O maior impacto dessa prevenção vai ser nas internações. Hoje, como não havia essa prevenção de forma ampliada, a criança se infectava, podia evoluir para uma bronquiolite mais grave, precisar de auxílio respiratório e, em alguns casos, ficar com uma sequela pulmonar. Quando a gente previne esses quadros graves, evita hospitalização e também reduz a chance de consequências futuras”, disse.

Ela lembra que isso pode representar alívio para um sistema que já convive com escassez de leitos pediátricos e de terapia intensiva. “A gente já tem dificuldade de leitos pediátricos no Brasil. Para bebês, isso é ainda mais delicado. Então essa prevenção, sendo bem distribuída, pode melhorar absurdamente a saúde pública”, avaliou.

A experiência internacional reforça essa expectativa. No Chile, uma estratégia nacional de imunização contra o VSR reduziu em 76% as hospitalizações e em 85% as internações em UTI pediátrica, sem registro de mortes entre bebês menores de um ano no primeiro e no segundo ano de implementação. Na Galícia, na Espanha, a redução nas hospitalizações chegou a 82% já na primeira temporada.

*Repórter viajou a convite da Sanofi

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