Estudos abordam modelos de pele em laboratório, estigma, melanoma e diagnósticos
Pesquisas desenvolvidas em diferentes regiões do país analisam questões relacionadas à diversidade de peles, doenças dermatológicas e características dos cabelos (Divulgação)
Quatro pesquisas que investigam diferentes questões relacionadas à pele, ao couro cabeludo e aos fios foram premiadas nesta semana durante a segunda edição do Dermatologia + Inclusiva, iniciativa do Grupo L’Oréal no Brasil.
Desenvolvidos por pesquisadores de diferentes regiões do país, os trabalhos abordam temas como modelos de pele em laboratório, estigma causado por doenças dermatológicas, melanoma e diagnóstico de alopecias em mulheres negras.
Criado em 2023, o programa surgiu a partir da constatação de uma desigualdade histórica no acesso a diagnósticos dermatológicos adequados para diferentes tipos de pele. Na primeira edição, o foco esteve em pesquisas relacionadas à pele negra. Agora, o escopo foi ampliado para estudos voltados também às populações indígena e trans.
A diversidade da população brasileira ajuda a dimensionar esse desafio. Segundo a L’Oréal, o país reúne 55 dos 66 tons de pele mapeados pela empresa no mundo e os oito tipos de cabelo identificados pela companhia. Os estudos premiados mostram diferentes caminhos para aproximar a pesquisa dermatológica dessa realidade.
Antes da premiação dos projetos, um talk reuniu os dermatologistas Felipe Aguinaga e Cauê Reis, a jornalista Carolina Marcellino, o diretor de Diversidade, Equidade e Inclusão do Grupo L’Oréal, Eduardo Paiva, e a diretora científica do grupo, Nathalia Harnam. A discussão trouxe situações vividas na prática clínica, como o atendimento dermatológico de pessoas negras e trans, além da falta de contato com esses públicos durante a formação médica.
Uma pesquisa do Grupo L’Oréal, apresentada durante o encontro, apontou, inclusive, que 44% dos dermatologistas entrevistados se sentem parcialmente ou pouco preparados para diagnosticar e tratar todos os tons de pele e tipos de cabelo.
“A dermatologia é muito visual. A gente aprende padrões pelos atlas, pelos livros, pelas imagens. Muitas condições são retratadas em pele caucasiana, em pele branca. E os sinais de algumas doenças, como a vermelhidão nas doenças inflamatórias, podem não se manifestar da mesma forma em uma pele negra. Então, é importante ter essa representatividade para que a gente consiga fazer um diagnóstico diferencial correto e essa pessoa tenha o tratamento adequado”, explica Nathalia.
As questões discutidas no encontro também aparecem nas pesquisas reconhecidas pela iniciativa. Os quatro trabalhos seguem caminhos diferentes, mas têm em comum a busca por produzir conhecimento a partir de características que ainda são pouco representadas na pesquisa dermatológica.
Uma das pesquisas, da pesquisadora venezuelana Liliana Ivet Sous Naasani, que atua no Rio Grande do Sul, desenvolve modelos de pele em laboratório a partir de células de tecidos descartados após cirurgias. O estudo usa uma membrana amniótica como suporte para reconstruir o tecido, criando um modelo que poderá ser usado em pesquisas e testes.
“Esse modelo pode ser utilizado para uma dermatologia mais inclusiva, porque vai representar a diversidade brasileira e poderá ser usado para testes cosméticos, biológicos, dermatológicos e de toxicidade”.
Em São Paulo, o dermatologista Helio Amante Miot pesquisa o estigma provocado por doenças que alteram a aparência da pele. O estudo vai acompanhar 200 pessoas com pele pigmentada, entre negros, ameríndios e orientais, que tenham doenças dermatológicas, para entender como elas percebem a discriminação relacionada à própria condição.
“As doenças de pele são estigmatizantes. E as pessoas que são portadoras se sentem estigmatizadas, se sentem discriminadas. Aqueles que têm pele pigmentada já sentem a dificuldade da discriminação ligada à cor da pele. E, quando eles têm uma doença, isso pode se somar”.
Em Campinas, a pesquisadora Bruna A. G. de Melo desenvolve o projeto Peles-em-Chip, que cria modelos de pele com diferentes níveis de pigmentação para estudar o melanoma e testar tratamentos.
“Para além da cor, as peles têm diferenças bioquímicas na sua estrutura. Dependendo da pigmentação, essa pele pode ser mais espessa ou mais fina, o que também pode alterar a permeação de produtos, de fármacos e de cosméticos”.
No Rio de Janeiro, a dermatologista Maria Fernanda Gavazzoni Dias desenvolve um algoritmo para ajudar no diagnóstico precoce das alopecias cicatriciais em mulheres negras. A ferramenta combina exames clínicos, tricoscopia e análise histopatológica para identificar se a queda de cabelo é causada por alopecia cicatricial ou por tração. Maria Fernanda não participou da premiação porque estava em um congresso internacional.
* A repórter viajou a convite da organização