Raquel Mota Faria, executiva farmacêutica com mais de 15 anos de experiência, analisa como a personalização terapêutica, fiscalização e gestão da qualidade estão redefinindo o setor.
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A expansão do interesse por tratamentos individualizados ocorre ao mesmo tempo em que autoridades sanitárias elevam o escrutínio sobre medicamentos manipulados, especialmente os comercializados em larga escala ou promovidos como equivalentes a produtos aprovados. O movimento coloca qualidade, documentação e treinamento no centro da estratégia das organizações farmacêuticas.
Nos Estados Unidos, medicamentos manipulados podem atender necessidades clínicas específicas quando um produto aprovado não é adequado a determinado paciente. Esses produtos, contudo, não passam pela mesma avaliação prévia de segurança, eficácia e qualidade aplicada pela Food and Drug Administration (FDA) aos medicamentos aprovados. A agência diferencia as atividades realizadas sob as seções 503A e 503B da legislação federal e condiciona as respectivas isenções ao cumprimento de requisitos próprios.
O debate ganhou visibilidade com os medicamentos da classe GLP-1. Em março de 2026, a FDA informou ter enviado 30 cartas de advertência a empresas de telessaúde por alegações falsas ou enganosas relacionadas a versões manipuladas desses produtos. No mês seguinte, a agência voltou a esclarecer que a manipulação somente se enquadra nas exceções legais quando todas as condições aplicáveis são atendidas.
Na realidade desse dia a dia, Raquel Mota Faria reúne a experiência de quem participa, desde 2011, da direção estratégica de uma operação farmacêutica de médio porte. Sua atuação abrange planejamento e indicadores, gestão financeira, liderança de equipes multidisciplinares, controle de qualidade, conformidade sanitária e modernização operacional. A combinação dessas áreas permite observar o setor não apenas pela perspectiva técnica, mas também pelos efeitos que decisões de gestão exercem sobre segurança, eficiência e sustentabilidade empresarial.
A mudança de cenário não elimina o papel legítimo da farmácia de manipulação, mas reduz o espaço para modelos baseados apenas em crescimento comercial. Para organizações do setor, a diferenciação tende a depender cada vez mais da capacidade de demonstrar origem dos insumos, qualificação de fornecedores, controles de processo, gestão de desvios, treinamento documentado e coerência entre a prescrição individual e o produto preparado.
“A conformidade não deve ser tratada como uma etapa isolada ou como responsabilidade exclusiva do controle de qualidade. Ela precisa estar incorporada ao planejamento, à formação das equipes, à análise de riscos e aos indicadores utilizados pela direção. Essa leitura desloca o foco do cumprimento meramente documental para a consistência do sistema de gestão”, afirma Raquel.
O tema também possui dimensão econômica. A Organização Mundial da Saúde estima em US$ 42 bilhões por ano o custo global associado a erros de medicação, valor próximo de 1% do gasto mundial em saúde. A estimativa abrange o sistema de uso de medicamentos como um todo (e não especificamente farmácias de manipulação), mas evidencia o impacto financeiro de falhas que podem ocorrer na prescrição, preparação, dispensação, administração e monitoramento.
Para Raquel, indicadores operacionais ganham utilidade quando conectam risco sanitário e desempenho empresarial. Taxas de retrabalho, desvios por etapa, reclamações, perdas de insumos, tempo de liberação, aderência a treinamentos e recorrência de não conformidades podem orientar decisões sem reduzir a qualidade a uma meta de produtividade. O desafio é evitar painéis extensos que registram atividade, mas não apoiam ações preventivas.
A própria estrutura regulatória norte-americana mostra a necessidade de capacitação contínua. No encerramento do ano fiscal de 2025, 93 estabelecimentos estavam registrados na FDA como outsourcing facilities sob a seção 503B. Essas unidades estão sujeitas, entre outras obrigações, a requisitos de boas práticas de fabricação, registro anual e comunicação periódica dos produtos manipulados. O número não representa todas as farmácias que manipulam medicamentos nos Estados Unidos, porque as operações enquadradas na seção 503A permanecem principalmente sob supervisão estadual.
Nesse ambiente, programas de treinamento precisam ir além da transmissão de procedimentos. Uma formação efetiva deve explicar por que determinado controle existe, como reconhecer sinais de desvio, quais registros sustentam a rastreabilidade e quando a equipe deve interromper uma atividade. A educação continuada também precisa ser revista sempre que houver alteração de norma, processo, equipamento, fornecedor ou perfil de risco.
A abordagem é coerente com a orientação da própria FDA, que mantém um centro voltado à qualidade em manipulação e oferece atividades de treinamento, pesquisa e interação para outsourcing facilities e demais participantes do sistema. A existência dessa estrutura indica que a melhoria da qualidade depende não apenas de fiscalização, mas também de capacidade técnica para interpretar e implementar requisitos de forma consistente.
Outro ponto é a distinção entre personalização terapêutica e produção padronizada em massa. A justificativa clínica para uma preparação individualizada não transforma automaticamente qualquer produto manipulado em substituto equivalente de um medicamento aprovado. Comunicação comercial, rotulagem, documentação da prescrição e limites regulatórios precisam permanecer alinhados, sobretudo em mercados impulsionados por forte demanda digital.
Para empresas farmacêuticas de pequeno e médio porte, a profissionalização da gestão pode representar uma vantagem competitiva, mas também uma medida de proteção. Processos mais visíveis permitem localizar causas de falhas, dimensionar custos da não qualidade e definir prioridades de investimento. Em sentido inverso, o crescimento sem controles proporcionais pode ampliar a exposição sanitária, financeira e reputacional.
Como desdobramento dessa agenda, Raquel avalia estruturar na Flórida uma operação de consultoria farmacêutica, treinamento técnico e educação continuada, com atendimento presencial e digital. O projeto permanece em fase de planejamento e deverá concentrar-se em gestão operacional, qualidade e conformidade, áreas que ganham relevância à medida que o mercado norte-americano procura conciliar acesso a preparações individualizadas com padrões mais rigorosos de segurança e transparência.