Especialistas explicam quando a reposição hormonal realmente ajuda a preservar músculos, ossos e disposição e por que ela não é a resposta para o envelhecimento
Reposição hormonal ajuda a preservar músculos, mas não é a resposta para o envelhecimento (Foto: Reprodução)
A conversa sobre longevidade mudou de foco. Mais do que viver mais, a ideia hoje é viver bem, com saúde, disposição e independência até tarde. Nesse contexto, a testosterona voltou aos holofotes, mas não mais só pela libido: agora aparece como aliada na manutenção de músculos, ossos e energia com o passar dos anos.
Com a idade, é comum que os níveis hormonais caiam, junto com perda de massa muscular, força e densidade óssea. Mas será que repor testosterona é a solução?
Para o médico Thales Skincariol, especialista em performance e longevidade, o hormônio tem papel central na composição corporal masculina: ajuda a produzir proteínas, preservar músculos e manter os ossos fortes. “É natural que a testosterona caia com o tempo, mas em alguns homens essa queda é mais intensa e vem com perda de força e aumento de gordura”, explica. Ele reforça, porém, que envelhecer não é sinônimo de precisar de reposição.
O urologista Cristiano Paiva, da Sociedade Brasileira de Urologia, concorda e acrescenta outras funções do hormônio: disposição, libido, função erétil e produção de células sanguíneas. “Quando existe uma queda significativa, podem surgir cansaço, perda de libido e menos qualidade de vida”, afirma. Segundo ele, obesidade, sedentarismo, sono ruim e doenças crônicas costumam estar por trás da queda hormonal e às vezes resolver essas causas já basta, sem precisar de reposição.
O diagnóstico correto é a chave. Não basta um exame isolado com resultado baixo: é preciso confirmar em uma segunda dosagem, de manhã, e cruzar com sintomas como queda de libido, perda de força, cansaço persistente e mudanças de humor. Antes de tratar, os médicos investigam a causa da queda, que pode envolver obesidade ou apneia do sono e avaliam riscos individuais, como saúde do coração, da próstata e, em homens mais jovens, o desejo de ter filhos.
Isso porque a testosterona aplicada externamente pode reduzir a produção natural de espermatozoides, ao interferir no eixo hormonal da fertilidade. “Homens que querem ser pais não devem iniciar a reposição por conta própria: existe uma estratégia específica para esses casos”, alerta Cristiano.
Os especialistas separam duas coisas: tratar uma deficiência real e usar testosterona como fórmula mágica contra o envelhecimento. “Usar o hormônio sem necessidade não significa mais saúde ou longevidade - pode, inclusive, trazer riscos”, diz Cristiano. Em doses erradas, o hormônio pode espessar o sangue, causar acne, retenção de líquido e reduzir a fertilidade.
Um dos maiores estudos sobre o tema, o TRAVERSE, acompanhou mais de 5 mil homens com deficiência hormonal e risco cardiovascular. O resultado foi tranquilizador quanto a infartos e AVCs, mas mostrou mais casos de arritmia e embolia pulmonar entre quem usou o hormônio, lembrete de que reposição pede acompanhamento médico sério.
No fim, não existe um “hormônio da juventude”. A testosterona pode ser uma ferramenta poderosa, mas funciona melhor ao lado de alimentação equilibrada, treino de força, sono de qualidade e exames em dia. “O verdadeiro envelhecimento saudável não é impedir o corpo de envelhecer, mas preservar o que realmente importa: força, autonomia e qualidade de vida”, resume Cristiano Paiva.